Ferrugem

Acabo de descobrir um grave efeito colateral de passar o dia inteiro sentada fazendo pessoinhas de biscuit compulsivamente. Como nosso carro está doente fui à igreja agora à noite de ônibus. Já saí ligeiramente atrasada, mas compensei caminhando rápido as quatro quadras que separam meu apartamento do ponto de ônibus.

Como não sabia qual ônibus pegar (nunca sei, até hoje não me entendi com o transporte coletivo desorganizado de Porto Alegre), entrei no primeiro que apareceu e que dizia ir para o centro, ressaltando que seu ponto final (ou como é dramaticamente chamado pelos portoalegrenses “fim da linha”) era no “Terminal Parobé”.  Como cada local aqui tem uns dois ou três nomes diferentes, eu nunca sei onde é o quê. Demorei um bom tempo para assimilar que o “Parque Farroupilha” e “Redenção” eram a mesma pessoa, que nada tinha a ver com o “Parcão”, que é o Parque Moinhos de Vento.

Eu ia descer na Farrapos, perto do viaduto da Conceição (lugar agradabilíssimo de atravessar, by the way), mas um rapaz perguntou ao cobrador se passava pela rodoviária e recebeu resposta positiva. Maravilha! Desço na rodoviária, bem na porta do metrô, pego o túnel que passa por baixo da avenida e saio bem em frente à igreja. Perfeito demais. Eu devia ter desconfiado. O cobrador estava certíssimo, o ônibus realmente passava pela rodoviária. Passou direto, sem nem pensar em parar.

Aprenda uma coisa sobre Porto Alegre: se você pega um ônibus no sentido Farrapos – Centro que passe pela rodoviária, saiba que após passá-la o coletivo só irá parar novamente perto do Mercado Público, o que é bastante longe. Pensei em entrar na Estação do Mercado Público e pegar o metrô até a rodoviária, mas não sei os horários, talvez demorasse mais do que ir caminhando.

O ônibus nos deixou sair apenas quando parou no camelódromo (finalmente alguém conseguiu construir isso por aqui. Mas não me parece maior do que o de Campo Grande. Precisaria ter mais uns três andares para abrigar todo o comércio informal do centro da cidade). Desci meio perdida, já que faz uns séculos que não caminho pelo centro à noite. Após me situar, segui por uma daquelas ruas escuras e mal cuidadas.

Eu gosto muito de Porto Alegre e me dá uma certa tristeza ver que até hoje não apareceu um prefeito decente para revitalizar o centro da cidade, que está cada vez mais feio, abandonado, sujo e caindo aos pedaços. É uma pena, pois esta cidade tinha tudo para ser bonita, atrair turistas, pois é a capital de um estado com tanta beleza, delicadeza e tradições preservadas.

Caminhar pelo centro é sempre uma atividade um tanto quanto estressante para mim, não importa a hora. Mas ainda  acho pior andar por ali durante o dia do que à noite, pois aquela multidão correndo não sei de onde não sei para onde, aquela gritaria de gente vendendo sei lá o quê para não sei quem é um pouco cansativa. Perto das 18h30 e já escuro (ai, que saudade do horário de verão, que nos estende a luminosidade do dia até nove da noite), caminhei mais rápido, ignorando quem me olhava como se estivesse vendo um alienígena. Eu sempre tenho a impressão de que me olham como se vissem um alienígena, isso não deve ser normal. Imagino que isso seja algo da minha cabeça, mesmo, eu devo me sentir um alienígena quando estou em público, então acabo acreditando que todo mundo me vê assim.

Na verdade, à noite no centro de Porto Alegre, todo mundo anda com uma certa paranóia. O pessoal caminha rápido, olhando para os lados, sempre atento ao barulho de passos atrás de si, tentando enxergar o perigo com a visão periférica. É comum que as pessoas andem em ziguezague, tentando despistar o persecutor inexistente. Qualquer indivíduo caminhando sozinho é potencialmente perigoso. Por que está sozinho? Tudo é muito suspeito.

Tive certeza de que o casalzinho à minha frente acreditava estar sendo seguido por mim. Na verdade eles é que estavam me seguindo, embora eu estivesse atrás. Eles me seguiam na frente. Estavam indo para o mesmo lado, não tenho culpa. Apertaram o passo, mas eu tinha de me apressar para não chegar no “Graças a Deus” (que é depois do Amém) e também fui mais depressa. Atravessaram a rua, eu ainda demorei um pouco mais, mas a entrada era do outro lado e tive de atravessar também. Mais um pouco eles teriam chamado a polícia (ou melhor, a “Brigada”, que é como chamam a polícia aqui), felizmente logo pude entrar pelo portão do estacionamento da igreja.

Peguei o finalzinho da Palavra e as duas últimas orações. Deu para encher uma folha do caderno com as anotações do culto. Saindo de lá, caminhei até o ponto de ônibus e peguei a primeira lotação que apareceu. “Hospital Conceição”. “Oi, vai pela Assis Brasil?” – O motorista respondeu: “Vai até o Conceição”. “Mas passa na Assis Brasil?” – insisti. “Vai só até o Conceição”. Oh, céus, como explicar que minha noção geográfica, espacial e cartográfica é praticamente inexistente e que eu não sei onde fica o Conceição! Em Porto Alegre existem várias lotações, algumas têm o mesmo nome, mas seguem itinerários completamente diferentes. Por isso eu sempre pergunto. E já aconteceu de inverterem os itinerários das lotações, possivelmente por eu já ter decorado qual ia por qual caminho. Murphy trabalha no transporte público.

“Passa pelo Bourbon da Assis Brasil?” Usei meu ponto de referência básico para saber se o microônibus (será que a reforma ortográfica sugeriria “micrônibus” ou “micronibus” ou mesmo “micro-ônibus”?) passaria perto ou longe de casa. Com a resposta, entrei, sentei, só para logo levantar, pois sobre rodas a distância é ínfima. Desci na avenida e caminhei as quatro quadras de volta, entrei no prédio, subi o lance de escada que nos separa do chão, entrei no apartamento, deitei na cama e…estava moída!!! Doíam músculos que eu nem lembrava que existiam. E meus joelhos rangiam…quase pedi um óleo Singer, que minha avó costumava colocar na máquina de costura. Senti cada um dos meus vinte e nove anos em cima de minhas pobres articulações e me arrependi amargamente de não ter aceito a sugestão do Davison de fazer Pilates ou voltar para a musculação.

Eu tenho trabalhado full-time e não havia me dado conta de que estava tão enferrujada. Cheguei morrendo de calor e ofegante, como aquelas gordas fumantes sedentárias do programa “Você é o que você come” quando são obrigadas a fazer exercícios aeróbicos pela primeira vez. Lembrei com saudade do tempo em que eu ia e voltava da igreja à pé, só pelo prazer de caminhar. Ou quando ia e voltava da auto-escola à pé, também. Ou antes, caminhando por todo o centro de Campo Grande, carregando em um dos braços a cesta de doces que me entortou a coluna (nada que não pudesse desentortar depois). Ou ainda antes, quando eu jogava basquete e era craque em correr alucinadamente e roubar a bola do adversário (na verdade eu só era escalada para os jogos pelo fato de saber correr feito doida e fazer uma marcação muito esquisita, tipo um polvo alucinado, a ponto de assustar a adversária, conseguir ficar com a bola e passá-la para alguém do meu time, que realmente soubesse jogar).

Enferrujei. E é melhor perceber isso agora do que depois de engordar cinquenta quilos e estourar todas as articulações do corpo. Menos mal. E então imagino quantas vezes a gente enferruja sem perceber. Não só fisicamente, mas em outras áreas, também. Quando você passa semanas sem ler, por não ter tempo (como se não pudesse levar um livro na bolsa), semanas sem escrever, sem pensar nas coisas que ouviu, que viu, que enfrentou. Sem analisar os fatos do dia-a-dia e a razão de sua reação a eles, sem aprender coisas novas, sem reciclar o que já sabe, sem conversar com os amigos, sem sair com o marido, sem conversar com a esposa, sem exercitar o senso de humor, sem falar com Deus, sem estudar a Bíblia, sem cuidar da alimentação, sem fazer exercícios…

Enferrujamos nosso cérebro, enferrujamos nossa vida social, enferrujamos nosso casamento, nossa vida espiritual, nossa rotina, nossos sonhos, nosso trabalho, enferrujamos nossa mente, nossa criatividade, nosso entusiasmo, nossa família, nossos dias, nossa vida.

Imagino que o som que uma dobradiça enferrujada faz ao se mover seja de dor. “Nhééééc”… Depois de enferrujada, qualquer movimento dói. Mas ao reparar a ferrugem, o jeito de testar o funcionamento é mover, mover, mover, até ter certeza de que não vai ranger mais. O início da mudança, o início de qualquer transformação é doloroso. Porém, mais doloroso é permanecer enferrujando a cada dia mais. A coragem na verdade esconde a falta de opção. Não tem jeito, ou eu sigo em frente ou eu sigo em frente. Ou eu saio de casa e faço exercícios ou eu saio de casa e faço exercícios, pois ficar em casa sentada o dia inteiro e estragar minha saúde não é uma alternativa válida.

Às vezes a gente espera um sinal dos céus para começar o movimento da mudança necessária na vida, mesmo sabendo o que tem de fazer, e que já deveria ter feito. Você já sabe que tem de mudar, já sabe que tem de mudar ontem! Sabe qual hábito ou atitude tem de jogar fora para iniciar essa mudança, o que está esperando? Qual sinal? Aí me lembro de uma passagem Bíblica em que Jesus responde aos que pediam esse tipo de sinal. Àquele pessoal incrédulo Ele disse que “nenhum sinal vos será dado, senão o de Jonas”.  Hello, Jonas foi engolido por uma baleia. Não é um bom sinal, fala a verdade. Ser engolido por uma baleia para se convencer a fazer o que você já sabia que deveria fazer é algo não muito inteligente, com todo o meu respeito ao Jonas.

Posted by Vanessa Lampert