Eu sou uma mosquita

Já comentei várias vezes a respeito do horror que tenho a inseticidas. Não consigo vê-los como meros “produtos de limpeza”. São venenos, daqueles bem venenosos, com caveirinha desenhada no rótulo e tudo o mais. Capazes, sim, de intoxicar um animal de estimação, tanto direta quanto indiretamente (o gato come uma barata envenenada, por exemplo), isso é ocorrência comum em clínicas veterinárias. Não confio e acredito em efeito cumulativo desse tipo de substância. Em todo caso, também não me agrada a idéia de expor meu organismo a esses produtos.

Mas isso é o de menos. Inseticida é quase que uma filosofia de vida, particular, alguns amam, outros odeiam, outros, abominam, e alguns acham absolutamente necessário.  O cheiro me incomoda, e mesmo os que não têm cheiro, me causam náuseas, mas nada que me incomode a ponto de apenas isso ser razão de eu não conseguir permanecer no ambiente, embora eu nunca permaneça no ambiente.

Ultimamente, porém, descobri certas coisas que me deixaram seriamente preocupada a respeito de minha existência. Primeiro, em minha penúltima viagem a Campo Grande, minha mãe, tentando me livrar dos ataques violentos dos mosquitos campograndenses, me deu um líquido de citronela para passar na pele. Quamurrí, colega! O cheiro daquele troço me ardeu todo o trato respiratório e meus pulmões se recusaram a trabalhar! Cadê o oxigênio? Cadê o oxigênio? Deu vontade de sair correndo!! E mamãe, tadinha, estava toda feliz, porque ama aquele cheirinho de citronela e achou que eu iria gostar, também.

Tentei me livrar da citronela lavando os braços (que era onde havia passado), mas não adiantou. Só consegui tirar o suficiente para não morrer sufocada, mas só de lembrar daquele cheiro horroroso, já sinto vontade de vomitar. É sério. Comecei a desconfiar que eu era um mosquito, mas não levei a sério.

Já em Porto Alegre, recentemente, sofri um ataque terrorista: diariamente entravam pela janela do meu quarto cerca de meia dúzia de Aedes Aegypti (sério), e mais um ou dois pernilongos tradicionais. Todos eles ávidos por um golinho do meu O negativo, desprezando profundamente o AB positivo do Davison. O sangue dele deve ser muito “eca” ou o meu é muuuuito maravilhoso, porque as mosquitas o ignoravam solenemente, enchendo minhas pernas, braços, costas, colo, rosto, nuca -e até pés-  de picadas. A situação estava ficando insustentável, o calor me impedia de ficar com a janela fechada, mas eu não podia correr o risco de pegar dengue, já que por ter tido dengue uma vez (em Campo Grande, claro), corria o risco de desenvolver dengue hemorrágica caso fosse contaminada novamente.  Entrei em contato com a Secretaria de saúde, passei meu endereço, esperava que encontrassem o foco dos mosquitos antes que eu desse o azar de ser encontrada por uma mosquitinha contaminada.

Os dias se passaram e nada da população mosquital diminuir. Então o Davison teve a magnífica idéia de comprar um repelente. Me lembrei de nunca ter me adaptado a repelentes, mas como grande parte de minha memória se fue depois do último burn out no ano passado, não soube dizer exatamente o que havia acontecido para eu concluir que não me adaptara bem. Então concordei, já que ele me garantiu que o repelente apenas afastaria os mosquitos, sem matar ninguém.

Eis que meu lindo esposo chega, certo dia, com o bendito repelente, em spray, todo chique. Quando ele aplicou em minhas pernas, a sensação gelada me pareceu bastante desconfortável, mas nada foi pior do que quando o cheiro do produto alcançou minhas narinas. De novo parecia que meus pulmões estavam mergulhados naquela desgraça cáustica, que irritou cada célula de meu apavorado sistema respiratório. Meus brônquios jamais ficaram tão bronqueados. Tive um desespero de me livrar daquele troço, nem que para isso fosse necessário me atirar em um tonel de ácido – devia ser mais agradável.

Mais uma vez, quamurrí! E tive a certeza de que eu nada mais sou do que uma mosquita superdimensionada. Não sei exatamente qual sensação foi pior, se a da citronela ou a do repelente. Então minha mãe me lembrou que ingerir levedo de cerveja regularmente mantém os mosquitos afastados. É verdade, nenhum inseto hematófago suporta sangue de suplementadores de levedo de cerveja. Lembro que mantivemos o Nermal sem pulgas por anos (e olha que naquele tempo éramos ignorantes e ele tinha acesso à rua) porque tivemos a sorte de ele amar o gosto do levedo de cerveja.

Ocorre que eu simplesmente não suporto o cheiro, muito menos o gosto do comprimido de levedo de cerveja, mas tenho tomado por obrigação. O Davison acha o gosto ótimo, mas eu sei que ele é exceção. Ao menos tenho conseguido manter minha pele mais ou menos intacta depois que passei a suplementar (ainda que com algum esforço) levedo de cerveja (que, a propósito, é ótimo para a saúde). Digo “mais ou menos” porque ultimamente tenho me incomodado com uma porção de carocinhos, vermelhidão, machucadinhos e coceira na pele e não sabia qual era a causa….até hoje. Mas essa é outra história.

Projeto de decoração

Como faço para planejar um ateliê dentro de casa? Primeiro preciso encontrar um cantinho agradável e confortável. E ainda preciso planejar alterações no Estúdio, como, por exemplo, encontrar uma cadeira realmente confortável e mudar a cor das paredes. Aquele verde sem graça deixa tudo muito escuro. E não dá para trabalhar sem luz. Sugeri ao Davison paredes brancas. Tudo ok. Mas como manter as janelas e portas marrons???? Sugeri vermelho (vermelho escuro), mas ele não gostou. Verde limão também não foi aceito. Laranja fosforescente ele também não aceitou. Não me sobraram muitas opções. Quem sabe com alguma insistência, ele aceite. Tenho certeza de que quando ele vir o resultado, perceberá que ficou bem melhor.

Paredes brancas, portas e janelas de madeira pintadas de marrom escuro em uma casinha pequena…bah, que sem graça! Qual é o problema em fazer do local de trabalho um ambiente alegre, colorido e baiano? Ainda mais quando se trata de um estúdio de arte! Fosse, sei lá, um escritório de contabilidade, sei que não ficaria legal, ou não pegaria bem. Mas oh, céus…Davison às vezes é meu freio. Se eu estivesse sozinha, meu estúdio seria uma árvore de natal! Eu sou MUITO drag queen…Davison é bem equilibrado, apesar do nosso sofá verde limão e da nossa tapeçaria com detalhes fosforescentes colocar essa afirmação em dúvida, às vezes :-) . Mas ele sabe dosar. Ei, eu também! Só quero a porta e as janelas. Não sugeri nem uma parede colorida…preciso aprimorar meus argumentos, assim, como quem não quer nada.

Da série: Diálogos Insanos

Davison está incontrolável hoje. Uma vez por mês (ou menos) ele fica com vontade de comer carne. Hoje foi um desses dias e agora tem um pedaço de bicho morto (ok, sorry) na panela de pressão, e ele chegou com uma cara muito estranha (eu devia ter desconfiado!!! É cara de quem está tendo uma crise de trocadilho! Ele tem Transtorno de personalidade trocadilhesca):

-Que pena que você não vai comer a carne de panela.

-Não precisa ficar com pena, não, amor, não estou sofrendo, eu não como carne.

Então ele se revelou, como um psicótico alucinado que saca seu punhal com cara de maluco para atacar sua vítima distraída:
-Mas…e se eu assar um CONTRA filé??? Ou se eu cozinhar um VAZIO???

Eu já estou acostumada com a obsessão dele por trocadilhos infames e até me contaminei com isso, já que não consigo falar ou pensar em algo com potencial trocadilhístico sem me sentir obrigada a fazer a piada. Para fechar com chave de ouro, ele completou, antes de sair:

– Mas não se preocupe, porque eu vou deixar o coxão de fora.

Pequena pausa para escrever

Uma dorzinha chata na cabeça por causa dessa luz forte acesa o tempo todo. Uma dorzinha chata na nuca por causa da posição mantida por muito tempo, prestando atenção aos detalhes minúsculos. Musculatura tensionada, uma dipirona empurrada por dois goles d’água e três bolachas de leite. Eu sei que não posso comer bolachas de leite, mas como.

Meus braços andam constantemente arranhados, eu tenho a estranha mania de brincar de lutinha com os gatinhos usando as mãos. Não se deve fazer isso, mas eu faço porque gosto. Às vezes, sem querer, em uma dessas brincadeiras eles me arranham. Dia desses resolvi reparar nos braços das moças na rua. Ninguém tem esses braços arranhados…olhei para meu antebraço direito…fininho, magrinho, com veias saltadas, ossinhos aparecendo, pequenos cortes e sombras de cicatrizes de cortes anteriores. Parecia braço de drogadinha da Estrela, daquelas doidas que se automutilam com estilete. Na dobra do meu braço direito você encontrará uma pequena cicatriz de agulha de grosso calibre, deixada por doações de sangue sempre no mesmo lugar. Vários pontinhos cicatriciais de bolinhas que surgem por causa da ingestão de derivados de leite. E eu nunca havia reparado nisso.

Talvez só eu consiga ver – é bem provável – mas é estranho perceber que eu passei minha vida toda sem reparar nos braços das outras pessoas. As mocinhas (ok, eu já não sou tão mocinha assim, ano que vem faço trinta) todas que eu vi têm bracinhos lisinhos e – de preferência – com penugens douradas praticamente imperceptíveis. Aí eu me lembro que tenho de fazer o ritual de descoloração com uma certa urgência. Bracinho magrelo cheio de cicatrizes e ainda coberto de pêlos escuros não dá, né? Por outro lado, olha só a boa notícia: não me restou nem um mísero complexo da adolescência.E eles eram muitos.

Voltando aos cortes nos braços, além das brincadeiras com os gatos, também dou o sangue pelo meu trabalho. A estrutura do corpo dos noivinhos costuma ser feita em isopor, para proporcionar maior leveza à peça (e a escultura não afundar no bolo…imagina só!). O bloco de isopor é cuidadosamente esculpido na posição desejada….com um estilete de lâmina extremamente afiada. Se a lâmina não estiver afiada, o isopor começa a se esfarelar.

Ocorre que a criatura que vos escreve é excepcionalmente desastrada e consegue se cortar absolutamente TODAS as vezes em que necessita usar o tal estilete. E não apenas isso, mas sou capaz de me cortar também ao usar uma tesoura, me espetar com agulha, alfinete e até mesmo palito de dente. Má notícia: esses instrumentos são utilizados diariamente. O alicate de cutícula também já fez suas vítimas. Assim, ao lado de meu instrumental de trabalho, das massas, cola, tintas, algodão, cotonetes, lenços de papel, creme para biscuit e pote de água, um kit de primeiros socorros contendo água oxigenada, band-aid, nebacetin, dersani, soro fisiológico, gaze, descansa, placidamente, aguardando o inevitável derramamento de sangue.

Ganhei um conjunto de ferramentas de dentista (para tirar o tártaro das esculturas :-)) e acabo de notar que uma delas simplesmente desapareceu. Justamente aquela da qual estou precisando neste exato momento…e, claro, a única potencialmente perigosa: um gancho consideravelmente grande. Obviamente a tal ferramenta apenas aguarda em seu esconderijo pelo momento ideal para me atacar. Não tenho dúvidas.  Seres inanimados possuem vontade própria.

Tenho tido vontade de escrever, mas vira e mexe me pego com o maior dos problemas: gerenciamento precário de tempo. Preciso aprender a mágica do gerenciamento de tempo e me tornar uma pessoa mais organizada, para viver um pouquinho entre o trabalho e as refeições. E descobrir como raios faço para manter horários, rotina, essas coisas de gente normal.  Mas confesso que dá uma preguicite violenta de acordar cedo com esse clima fresquinho que anda fazendo por aqui. E a vida anda boa, não tenho do que reclamar. O trabalho tira meu sangue (hahaha) e toma 90% do meu tempo, mas eu gosto, me divirto, me canso, mas fico feliz. Ainda não consegui estabelecer uma rotina que comporte tudo o que eu deveria fazer além do que já estou fazendo, mas sei que é apenas uma questão de tempo (em todos os sentidos).

Tem um gato miando à minha porta. É um miado amarelo. A cabeça não dói mais, mas os olhos reclamam da luz forte. Talvez seja hora de desligar a luz, acender a luminária discreta, descansar um pouco os olhos, as costas e a cabeça, ouvindo uma música suave e acariciando um gatinho tigradinho. Eu deveria ter um horário pré-determinado para isso. Não é esquisito? A pessoa sentir necessidade de horários pré-determinados e regras? O pior é você levar quase trinta anos para descobrir que é bem diferente do que achava que era. Eu tenho necessidade de horários pré-determinados (por mim, of course) para me sentir confortável e em equilíbrio. Organização. Ordem. Seja lá quem tenha feito aquela inscrição na bandeira estava certo: ordem e progresso. Também funciona com acento: Ordem é progresso. Organização não tira a liberdade de ninguém, pelo contrário, organização confere liberdade, tempo, tranquilidade e gera energia.

Isso é por demais complexo. Guardo o assunto para um futuro post.

Pesadelo de hoje:

Sonhei que minha irmã (a mais velha, mas no sonho ela tinha a minha idade) iria se casar e eu precisava ajudá-la com os preparativos. Já estava quase na hora da cerimônia e eu me dei conta de que não tinha levado minha maleta de maquiagem. Eu estava completamente sem maquiagem!!! Fui, então, à casa da minha mãe, que era perto da igreja, pegar a maleta. Lá encontrei minha avó, conversei com ela, com minha mãe, com minha outra irmã, com minha prima Graziela, com meu primo Igor…havia um casal de gatinhos novos e acabei me distraindo. Depois voltei para a igreja quase em cima da hora e me dei conta de que novamente havia esquecido a maquiagem. Estava chovendo muito e não tinha como voltar sem perder a cerimônia. Já estava todo mundo lá: meus irmãos, minhas cunhadas, minha mãe, minha irmã e muitos conhecidos. E eu, sem maquiagem! Só mesmo em sonho é que eu sairia de casa sem maquiagem alguma no rosto…mas o que conferiu a esse sonho, que tinha tudo para ser legal, o ar de pesadelo foi estar em cima da hora para uma festa e não poder me maquiar.  Meu cérebro conseguiu, com economia de recursos, fazer um pesadelo sutil e assustador. Monstros, terremotos, astros caindo do céu, invasões alienígenas…para  quê?  Nada disso me assusta mais, eu olho e já percebo: “ah, é um sonho”.  Meu cérebro já percebeu que se quiser realmente me assustar, tem de ser mais discreto e criativo. E hoje acertou em cheio.

Hein???

Só eu que não consegui entender direito o que raios é isso?

Aí ainda aparece: “Digite  o texto conforme o mostrado na caixa”…é brincadeira, não?

Digitei:WMMUNC e apareceu: “o texto que você digitou não corresponde ao texto exibido”

Jamais saberemos.

Carta à Aline

Querida Aline,

Não nos vemos há cinco anos, e nem sei se nos reconheceríamos se nos encontrássemos hoje, mas como eu gostaria de receber notícias suas! Quando nos conhecemos, eu também queria ser alguém diferente, queria ser mais velha, estar com a vida estabilizada, queria, sinceramente, ter condições financeiras para te levar para casa e te dar oportunidade de ter um futuro melhor. Sim, eu vi em sua inteligência, em sua vivacidade, em seu raciocínio, seu senso de humor, sua sensibilidade, a filha que eu um dia gostaria de ter.

Hoje me deu saudade, Aline, ao reler a história de nosso encontro, e me apertou o coração pensar que você já tem quinze anos, é uma moça. Quem será a moça que você se tornou? Espero que não tenha perdido nada pelo caminho, que o mundo não tenha arrancado pedaços da menina que conheci. Pensei na vontade que eu tive de te ajudar de uma forma mais eficiente, puxa, eu me senti tão impotente naquele dia! Não consegui ficar feliz por ter apenas ajudado a matar a sua fome, mas me tranquilizei com a esperança de ter plantado em você uma boa semente, esperando que aquilo fizesse diferença, algum dia.

Eu quis tanto te ajudar, te pegar no colo e te levar para casa, mas não podia, pois não tinha condições, e mesmo se tivesse, não poderia simplesmente te arrancar de sua vida contra a sua vontade, ou te persuadir a vir comigo, pois assim eu seria responsável por uma escolha que deveria ter sido sua, eu seria injusta, por melhores que fossem minhas intenções. Eu poderia ter, como resultado, uma moça revoltada, que jogasse a responsabilidade de seus problemas e frustrações sobre mim, no futuro, e não uma mulher sensata, feliz e realizada, que reconhecesse o que fiz, me respeitasse por isso, fosse minha amiga, me ajudasse e tivesse sabedoria para ajudar outras pessoas. Na tentativa de te ajudar, eu poderia te tornar pior do que você poderia ser sem mim.

E se eu tivesse condições de te trazer para casa, sua mãe não aceitaria, pois precisava de você para pedir dinheiro na rua. E seus irmãos se revoltariam, querendo ter, também, o que eu queria te dar, mesmo eles não tendo a mesma sinceridade sua, a mesma pureza, a mesma alegria, a mesma fé que eu encontrei em você e que me motivou a querer te resgatar daquela vida. Como eu poderia aceitar ter em minha casa, convivendo comigo, pessoas que não tinham absolutamente nada a ver com meu modo de pensar? Como eles poderiam querer ser tratados como meus filhos, se estavam vivendo na marginalidade, na mentira, no roubo, e provavelmente até nas drogas? Você tinha tudo a ver comigo, como a gente se deu bem! Toda importante, você comentou das vitrines comigo, conversou sobre várias coisas, mostrou um raciocínio que poucas vezes vi até mesmo em adultos de bom nível social. Que vontade de te levar para casa, Aline! E que aperto no coração por não poder!

Se eu pudesse, Aline, se eu tivesse condições naquela época, eu te ofereceria a minha casa, e te diria que gostaria muito, sim, de ajudar a sua mãe, mas eu não podia, então você teria de vir comigo sozinha. E ainda se eu pudesse ajudar a sua mãe, Aline, só adiantaria se ela tivesse o mesmo pensamento que você, ou então, em pouco tempo, ela estaria novamente na mesma situação, e provavelmente me culpando por não ter dado certo. Mas se você aceitasse, Aline, e tivesse a confiança de me entregar seu futuro, fazendo tudo o que eu te orientasse e te explicasse, se você se aplicasse a entender meus pensamentos e tudo o que eu te ensinaria, se me ouvisse sempre com aqueles olhinhos atentos, sedentos de instrução, de sabedoria, como uma esponja que absorvesse minhas palavras e colocasse em prática o que havia aprendido…ah, Aline, você seria a pessoa mais feliz e bem-sucedida deste mundo, porque eu não me importaria em abrir mão da minha vida para ver você se tornar a pessoa que eu acredito que você poderia ser. E você poderia ser tudo o que quisesse!

Se você quisesse vir. Se você me ouvisse. E sabe, Aline, enquanto eu pensava essas coisas, e na alegria que eu sentiria em te ajudar a vencer, ainda que ninguém me visse, ainda que nem você me visse (desde que me desse ouvidos…risos…), ainda que eu me sacrificasse, esquecesse da minha vida para cuidar da sua, eu pude sentir o amor que uma mãe sente por um filho. Ainda que você não tenha nascido de mim, ainda que eu não tenha te criado desde bebê, eu pude te sentir minha filha, e entendi a entrega, entendi também como sofreria calada caso você me dissesse não, caso não quisesse vir, caso não entendesse ou achasse que eu deveria te ajudar ali mesmo, sem que você saísse da rua. Eu não poderia te trazer para casa e te fazer verdadeiramente minha filha, mas continuaria te amando em silêncio, e esperando que você um dia entendesse e viesse. E se eu pudesse fazer alguma coisa (sem você saber que era eu, claro) para que você abrisse os olhos e viesse antes que fosse tarde, ou pelo menos que entendesse direitinho o que estava perdendo, para tomar sua decisão de modo consciente…

E sabe, Aline, enquanto eu pensava nisso tudo, me imaginando ali, tendo condições de te ajudar, querendo te ajudar, sendo rejeitada e sofrendo a dor, em silêncio e em espera, te vendo sofrer sem necessidade, e quase te ouvindo me dizer que se eu fosse realmente uma boa pessoa eu te ajudaria mesmo você não estando em minha casa, vendo sua incapacidade de compreender que eu não queria te dar uma ajuda, eu queria transformar sua vida, vendo sua incapacidade de perceber que qualquer ajuda dada a quem não tem a orientação correta pode ser destrutiva, e te afastaria ainda mais de mim.  E eu pensava, Aline, que ainda que você aceitasse e viesse, mas não me ouvisse, e continuasse com um pé nas ruas de Canela e outro aqui, ou mesmo com os dois pés aqui, mas não me ouvisse, não quisesse escutar a minha voz, e ignorasse o fato de eu ter te tirado da morte certa, da escravidão das ruas, da escravidão da tristeza, em que você nem sabia que vivia, como se eu não fizesse mais do que minha obrigação em te ajudar, se você ignorasse todo o meu sacrifício, meu esforço e meu amor e quisesse viver a vida de acordo com a sua própria cabeça, eu, como mãe, teria de me resignar e voltar a esperar.

Mas eu sofreria, é claro, pois saberia o quanto poderia ter te dado, o quando eu até já tinha prometido, o quando eu poderia te ajudar. Se você não me ouvisse, não me atendesse, eu não teria o que fazer. Teimosa, você diria que sabe o que faz com a sua vida, que não precisa de meus conselhos. Então, se seus conselhos eram suficientes, pensei, vá em frente. Mas sabe, Aline, enquanto eu pensava em tudo isso, sentia um aperto no peito, sabendo que, puxa, não precisaria ser assim. Eu tinha tudo para te dar, era só ter me ouvido, seguido minha orientação e você poderia ir para onde quisesse, desde que continuasse a me ouvir. Eu te colocaria na melhor escola, e também te ensinaria muito em casa, sentaria contigo à mesa e falaria sobre uma porção de histórias, te mostraria livros, te ajudaria a entender as coisas, conversaríamos, eu jamais te deixaria sem resposta. Te ajudaria a escolher uma profissão, aprenderia sobre ela, até, para te ensinar. Você seria a melhor profissional de sua área, nunca te faltaria absolutamente nada, e eu te ensinaria tanto! Te ajudaria a construir uma auto-estima tão forte e a desenvolver sua inteligência de um jeito que você poderia conversar com qualquer pessoa sem jamais se sentir diminuída, você poderia fazer qualquer coisa, em qualquer lugar. Eu te apresentaria a várias pessoas importantes, te levaria em vários lugares legais, aonde você quisesse, te ajudaria a resolver seus problemas, eu daria as ferramentas para que você pudesse resolvê-los.  Eu tinha tudo para te dar, era só ter me ouvido, seguido minha orientação e você poderia ir para onde quisesse, desde que continuasse a me ouvir. Que pai que, tendo esse poder, não iria querer que seus filhos o seguissem? Eu não poderia exigir isso de um filho, porque ele estaria crescendo para se tornar uma pessoa do mesmo tamanho e com a mesma capacidade de qualquer pessoa.

No entanto, Aline, se eu fosse maior do que você, digamos, se o mundo fosse uma grande e plana folha de papel e todas as pessoas fossem desenhos simples e destacáveis, daqueles que não podem atravessar um risco vertical, pois bateriam na parede. Então eu veria tudo, Aline, seria maior do que você e poderia te orientar até o final de sua vida, pois seria maior do que você, para sempre. Depois te destacaria e traria para junto de mim, longe da folha de papel, para uma vida tridimensional. Ah, Aline, qualquer mãe, qualquer pai que sentisse por seu filho o que senti ao te imaginar comigo iria querer ser ouvido. Não por orgulho, não para sentir-se superior ou controlador, não, mas para garantir que o filho ficaria bem. Ah, Aline, se eu soubesse todas as coisas iria querer que você parasse, me ouvisse, aprendesse e praticasse o que aprendeu, pois é simples. Te pediria para não perder tempo, Aline, para não se iludir com a vida, porque tudo passa. Eu ficaria tão feliz em te ter comigo, fazendo o que eu te ensino, se transformando na grande mulher que eu quero que você seja, para que eu tenha a alegria de dizer que você é minha filha e que possam reconhecer traços meus em você, de personalidade, caráter e valores, que é muito mais do que reconhecer traços do rosto em filhos biológicos.

Então, Aline, enquanto eu pensava em tudo isso, lembrei de alguém que passa exatamente por essa situação que imaginei e que pude sentir tão claramente, como se fosse verdade, como se realmente fosse comigo. Ele é o desenhista daquela folha de papel, e tenho certeza de que sente por você algo muito maior do que eu senti quando te conheci e que sinto sempre que me lembro de você. Os homens complicam as coisas, Aline, mas a verdade é simples assim, é só isso que Ele espera dos seus filhos, daqueles a quem ele chama e por quem ele espera. E assim como eu te escrevo hoje, Aline, ele também me escreveu, e eu leio todos os dias, para conhecer seus pensamentos. Enquanto eu leio, ele fala comigo; eu não consigo ver, pois meus olhos são feitos no papel e só podem ver o que está no papel. Mas eu sei que ele fala comigo. Não é exatamente um sentimento, é como se eu tivesse, em minha mente, um editor de texto de pensamentos ao qual ele também tem acesso. Quando ele escreve, eu sei que é ele. E, muitas vezes, ele também me ajuda a escrever, me ensina começando um raciocínio para que eu possa concluí-lo. E assim como eu te escrevo hoje, Aline, Ele me escreveu, e disse: *”O meu povo não me quis escutar a voz, e Israel não me atendeu. Assim, deixei-o andar na teimosia de seu coração; siga os seus próprios conselhos. Ah! Se o meu povo me escutasse, se Israel andasse nos meus caminhos! Eu, de pronto, lhe abateria o inimigo e deitaria mão contra os seus adversários. Os que aborrecem ao Senhor se lhe submeteriam, e isto duraria para sempre. Eu o sustentaria com o trigo mais fino e o saciaria com o mel que escorre da rocha”. Aline, quando Ele fala em Israel, aqui, fala daqueles que Ele gostaria de fazer seus filhos, ou que já são seus filhos, mas não escutam ao pai. Expõe aqui o seu caráter de pai, o que o faz esperar por você tanto quanto, em minha narrativa, eu esperei.

Beijos e saudades

De quem espera, em breve, ter boas notícias a seu respeito,

(Tia) Vanessa Lampert

notas: * Salmos 81:12

A história do meu encontro com a Aline pode ser lida nos arquivos pré-históricos do Another Monster. Clique aqui.