Notinhas

Ainda não posso relatar detalhes de minha experiência ao público, mas estou anotando tudo para revelar em momento oportuno…risos…só posso adiantar que consegui alugar um apartamento e estou na expectativa de receber as chaves…oh, céus. Detalhes dessa expedição, só depois que as chaves estiverem em meu poder…risos…

Estou em outro hotel, e neste há formiguinhas minúsculas, quase invisíveis, alucinadas e neuróticas, correm de um lado para outro fazendo com que você acredite que viu um micro-vulto. Tentei fazer um acordo com elas: coloquei um pedacinho de pão torrado em um cantinho do quarto, para que elas me deixassem em paz. Funcionou, por um tempo. Agora elas voltaram para me perguntar se não tinha nada melhor a oferecer.

No extremo oposto ao das formiguinhas minúsculas e praticamente invisíveis, São Paulo é uma cidade de macro. Tudo é maiúsculo, grande, espaçoso, tudo é coletivo, aumentativo, superlativo…coisas acontecendo o tempo inteiro, distâncias gigantescas encurtadas pela vontade de se chegar ao outro lado…

Tenho me dedicado ao trabalho em tempo quase integral (o tempo que sobra eu vejo as questões do apartamento e mudança) e não consigo me comunicar direito com as pessoas. Acabo respondendo a uma pergunta no facebook, outra no email, escrevendo algo no Twitter…para não parecer que sumi de vez. Conta pontos a meu favor o fato de eu escrever muito rápido. Um post desse tamanho, por exemplo, não me toma três minutos. Mas penso seriamente na possibilidade de fazer posts curtinhos, concentrar tudo no blog. O que eu escreveria no twitter, o comentário que faria no facebook… me agrada mais, por ser menos…volátil.

Estranho vai ser para quem está habituado a ler longos textos por aqui. E desculpem por eu estar puxando o blog novamente para uma coisa pessoal, umbiguista, que eu não queria mais fazer. É só uma fase, só uma fase…

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A saga da busca por um imóvel

Eu nunca entendi o porquê de as pessoas (clientes e proprietários) torcerem o nariz para corretores…eu achava que era por terem pego algum desonesto pelo caminho…e pode ser, mesmo. Mas agora, estando do lado de cá, percebi que o negócio é bem mais complexo do que parecia.

Sempre que precisei escolher um imóvel para alugar, tinha alguém para fazer isso por mim. Ou o Davison, ou minha sogra, sempre tinha alguém para ver, escolher, assinar, etc. Eu confiava, deixava nas mãos deles, e não me envolvi com absolutamente nada do processo.

Agora estou tendo que ligar, marcar visita com o corretor, ir visitar…nenhuma experiência 100% boa até o momento!!! Como pode? Nunca trabalhei com aluguel, então não sei se o esquema dentro de imobiliária que trabalha com aluguel é diferente, ou se é só em São Paulo que é assim, mas achei muito engraçado chegar em uma imobiliária e não encontrar nenhum corretor de plantão para me atender e me levar para visitar um imóvel! Simplesmente me passavam o cartão do corretor e pediam para eu ligar para agendar com ele uma visita.

E o giro de imóveis aqui é tão rápido que fui em imobiliárias que tinham os anúncios de seus imóveis datilografados (!!) em bilhetinhos afixados em murais…as pessoas eram orientadas a olhar no mural…caso se interessassem por algum daqueles imóveis, pegariam o código e ligariam para o corretor, para agendar a visita. No entanto, eles não estão preocupados em fidelizar o cliente, dar atenção…estão preocupados com o volume, e me aconteceu várias vezes de marcar uma visita, chegar lá e…nada do corretor aparecer.

Primeiro, coloca o cliente em seu devido lugar: ele não é o todo-poderoso no controle da situação enquanto o corretor subserviente está à sua disposição em qualquer dia, horário ou local. O cliente é quem tem que correr para não deixar passar a oportunidade. Isso eu realmente achei positivo. O problema é dar abertura para a falta de interesse do corretor, o que pode atrapalhar o resultado da negociação. Primeiro, cito um caso que não foi de negligência, mas de omissão de informações por parte do corretor:

Corretor muito prestativo, respondeu rapidamente ao meu email, foi super educado e  quando soube que eu não era daqui, se ofereceu para me buscar no hotel. O apartamento estava anunciado como sendo próximo ao Santana Parque Shopping. São uns 750 metros, segundo o Google, uns dez minutos de caminhada…é perto, sim, mas essa informação faz a pessoa achar que o imóvel fica no bairro Santana. E não fica. O bairro é Cachoeirinha, a região tem cara de barra-pesada.

Eu perguntei se não era perigoso, já que eu teria que caminhar uns dez minutos até o ponto de ônibus para ir e voltar…ele mostrou umas casas “chiques” ali por perto e disse que se fosse perigoso, aquelas pessoas não morariam ali.

O imóvel estava reformado, lindo, mesmo, cheio de armários, mesa montada no home office…lustre modernoso, tudo lindo…mas a sala era pequena, em formato esquisito, nem sei explicar. No anúncio dizia que o apartamento tinha 65m², mas parecia que tinha 50. Os quartos eram tão apertados que duvidei que coubesse uma cama de casal ali. O corretor calculou e disse que o quarto tinha uns dois metros e meio de largura, caberia uma cama de 2 metros e ainda sobraria “todo esse espaço” (tipo…50 centímetros) para circulação.

Eu preciso de espaço. Meu apartamento em Porto Alegre tem uns 60m² e eu já me sinto encaixotada. Aquele parecia menor, e ainda eu tenho certeza de que os metros dele não eram lá muito quadrados…a sala era uma coisa esquisita, tipo um pentágono com menos de cinco lados, entende?

Mas o que pegou mesmo foi a dificuldade no deslocamento…não posso caminhar tanto para ir ou para voltar…e em um dia de muita chuva? Toda hora o corretor falava sobre trajeto de carro, mas eu já tinha dito que não usaria o carro. Helooo… Erro primordial: não ouvir o cliente. Não adianta ser um cara legal, prestativo, educado e não ouvir o cliente.Tentou me colocar um senso de urgência “por esse preço você não vai encontrar nada desse tipo, ainda mais com garagem”… “vamos à imobiliária fazer uma reserva para garantir”…e aquelas coisas que a gente já conhece bem. Mas não dá. Esse tipo de pressão não funciona com todo mundo, tanto que eu só usava quando realmente era verdade. E compra de imóvel é outra realidade, se eu deixo passar uma grande oportunidade é um investimento que estou jogando no lixo. Aluguel são outros quinhentos, não? Não sei se funciona do mesmo jeito.

Aliás, meu problema nesse processo todo é nunca ter trabalhado com aluguel, então não entendo nada mesmo. Só o que entendo é do imóvel, ver se as coisas estão caindo aos pedaços ou não, saber as perguntas que tenho que fazer (às vezes esqueço, mas tudo bem). Depois fui no esquema que todo mundo disse que era o melhor:  caminhar e ir perguntando, de edifício em edifício, se tinha alguma coisa disponível.

Eu devo ter muita cara (ou jeito) de corretora, porque mesmo de camiseta, calça jeans e sandália, a maioria dos porteiros me olhava com expressão desconfiada e perguntava: “você é corretora?”  Para não me estender no assunto, eu dizia que não. Ok, ser eu até sou, já que a gente nunca deixa de ser, mas não estou mais corretora. A chavezinha foi mudada para a posição “escritora e jornalista”, coisa que a gente também nunca deixa de ser.

Pois bem…nessas caminhadas encontrei UM apartamento dentro das especificações e ainda não consegui ver, está um pouco acima do valor que eu gostaria de pagar. Encontrei outros dois, em um bairro pouco mais afastado, mas próximos de metrô e ônibus…e bem mais baratos. Me atrasei (perdi o ônibus) e o corretor já tinha ido embora. Telefonei e apareceu uma  corretora simpática, ela foi super atenciosa ao me mostrar o apartamento, disse que também tem uma gatinha, conversou, foi super fofa. O problema foi que eu inventei de dizer que também era corretora…sim, eu expliquei que não estava trabalhando com imóveis, que vim para um trabalho na minha área e também que nunca trabalhei com locação. Achei que seria um ponto de identificação, mas ela pareceu um pouco irritada e subitamente ficou com pressa de sair. Acho que não gosta muito de corretores…risos….

Tem sido uma novela e tanto. As imobiliárias aqui têm uma espécie de convênio com uma empresa de seguros e não se esforçam nem um pouco para fazer negócio. Se não for com o tal seguro, elas nem querem papo. Duro é convencer o proprietário de que sou uma pessoa que paga aluguel direitinho (Dona Claira não tem do que reclamar…até pretendo divulgar o apartamento dela para meus contatos em Porto Alegre que queiram locar, quando ele estiver “visitável”) e que ele nunca vai precisar utilizar nem seguro, nem depósito, nem fiador, então please, me libera o que for mais rápido e prático porque eu preciso me mudar  ontem, ok? Minha família (marido e felinos) está longe e eu preciso trazê-los para perto o quanto antes. Ninguém se comove. Já fui melhor em minha capacidade de persuasão…quando eu era jovenzinha e tinha uma carinha de dó. Pode ser.

Procurando agora nem que seja uma kitnet mobiliada para alugar por algumas semanas ou um mês, para ter alguma privacidade, tranquilidade e ordem enquanto procuro apartamento definitivo para alugar. Estou usando meu tempo na busca por um imóvel e no trabalho que tenho a fazer, então muitas coisas têm ficado acumuladas, peço que por mais algum tempo tenham infinita paciência.

PS: Também teve outro que falou comigo por telefone, prometeu me ajudar, pegou todos os meus contatos e nunca mais ligou, nem falou nada. Eu não liguei, porque acabam aparecendo outros imóveis, outras imobiliárias e outros corretores. E yes, estou fazendo o que eu odiava que fizessem comigo…tipo, eu tenho pressa…se o corretor não me acompanha em minha pressa, paciência. Mas eu trabalhava com vendas…venda é um ritmo menos alucinado, os clientes não podem usar a pressa como desculpa. Imóvel para comprar a gente escolhe com calma…e seleciona muito bem um corretor para ajudar nessa busca.

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Conta outra

Obama realmente quer que eu acredite que matariam Bin Laden e não filmariam o evento? Ou que matariam Bin Laden e não exporiam o corpo em praça pública? Que serviço de inteligência burro é esse, que joga ao mar o corpo do cara mais procurado dos últimos dez anos? “Nenhum país aceitaria o corpo de Bin Laden”…hein? Conta outra, tá?

Nem estou me atendo muito ao assunto, pois realmente não acredito nessa história e acho ridículo tudo o que foi dito até agora. Eu não sou anti-EUA, sou contra demonizar qualquer nação, e sei das qualidades dos Estados Unidos. Não sou nem contra guerra, acho que em alguns casos ela é realmente inevitável. Não sei se nesse caso era tão inevitável assim.

Também sei que Bin Laden é um maluco que testava armas químicas em cachorros e matou muita gente (não falo simplesmente do 11 de setembro). Se fez isso com a conivência dos EUA, ou se os Estados Unidos mataram muitas pessoas em guerra, isso realmente não justifica, nem atenua seus atos. Mas está bem claro para mim que ele foi pego como pode expiatório.

Saddam era um maluco ainda pior, capaz de matar até mesmo os de sua família, caso se voltassem contra ele e contra seu complexo de deus.  Mesmo assim, seu “império” já estava desmontado quando ele foi pego. Talvez fosse mais eficiente deixá-lo em prisão perpétua do que condená-lo à morte, mas essa é uma opinião estritamente pessoal. A “guerra contra o terror” foi feita de uma maneira equivocada, e o “anúncio” da morte de Bin Laden só me prova isso.


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Um hábito singular

Escrevi esse texto em 2009, está postado aqui: http://lampertop.com.br/?p=309 . De lá para cá, melhorei, mas confesso que ainda não perdi o tal hábito e tenho que me cuidar para não comer os plurais. Enquanto eu estava em Porto Alegre, não havia problema, era até aceitável. Alguém falando todos os plurais corretamente soaria até bem estranho. Em São Paulo as pessoas não são especialistas em plurais, mas talvez a coisa não seja tão bem recebida quanto era no Rio Grande do Sul, então tenho me cuidado para voltar a falar como uma pessoa devidamente alfabetizada. Segue o texto, para que quem não leu consiga entender o meu drama.

Um hábito singular

Vanessa Lampert

Estou me esforçando um bocado para perder um péssimo hábito que adquiri sem perceber aqui em Porto Alegre. Estava eu, em minha mais recente visita a Campo Grande, falando compulsivamente (coisa que costumo fazer com relativa frequência), quando notei um olhar estranho vindo de meus interlocutores. Me dei conta, de repente, que estou construindo frases de uma maneira um tanto quanto gauchesca. Explico: gaúchos têm alergia a plural. Plural é uma coisa ultrapassada, é algo supérfluo. Pronunciar um ‘ésse” a mais gasta energia que poderia ser utilizada em argumentos mais eloquentes. Assim, um gaúcho JAMAIS irá sentir dor nos pés depois de uma longa caminhada. Caso eles venham a doer, o gaúcho dirá, com toda a carga dramática envolvida na exclamação: – Bah, tô com uma baita dor nos pé!” Note que “uma baita dor” é significativamente mais intensa do que “uma dor”. É como o superlativo “aço”. Se um gaúcho bater o cotovelo na parede ele dificilmente dirá que deu “uma cotovelada na parede” porque o sufixo “ada” sugere algo de baixa intensidade.

Dificilmente uma cotovelada doeria a ponto de merecer ser citada. Geralmente o gaúcho dirá que deu “um cotovelaço na parede”. Um cotovelaço dói. Dói DE VERDADE. É uma baita dor! Uma baita batida na parede, e se machucar a ponto de continuar doendo depois, ter de ir ao médico, talvez imobilizar, enfim, se não for algo que passe na hora, ele dirá “bah, dei um cotovelaço na parede. Pisei meu cotovelo” Aí eu imagino o cidadão fazendo algum contorcionismo para conseguir pisar NO cotovelo. Duvido que tenha sido um acidente. Bem, voltando ao assunto, de tanto ouvir: “bah, onde foi que eu coloquei as tampa dos pote?” ou “eu só faço minhas compra naquela loja que fica três quadra daqui, gosto de ficar olhando as gôndola para escolher os produto que preciso.” Veja bem, isso é generalizado (deve ser a água). A pessoa pode ter curso superior, mestrado, doutorado, pode ter hábito de leitura, geralmente escreve corretamente (às vezes até conjugando o verbo na segunda pessoa do singular!! Coisa que eles não costumam fazer ao falar…a segunda pessoa acompanha o verbo na terceira pessoa, conforme exemplo a seguir), mas na hora de falar segue um dialeto próprio, charmosamente analfabeto e muito, mas muito contagioso: “- Tu viu que estampa bonita? Uns azul, uns verde, uns vermelho, tudo misturado, mas de um jeito muito tri, o vestido tem umas fenda, um decote diferente, mas as manga não vão até os cotovelo, não. Se bem que não sei o que tu acha, mas eu acho que nem precisa daquelas manga”.

Vendo, assim, desse jeito, você pensa: “eeeeeu??? Mas eu NUNCA que falaria desse jeito! Nem se ficasse CINQUENTA anos em um lugar assim”. Aí é que você se engana, colega, você não perceberia!! O troço se enfia dentro da cabeça da gente de um jeito muito invasivo! Você não nota que está falando que está com dor nas perna, ou que todos os músculo do seu corpo dói! Ou que você esqueceu os prato em cima da pia, um deles escorregou e caiu sobre os copo que estavam dentro da pia e espalhou caco de vidro por todos os canto da cozinha. Depois você pegou a vassora e varreu os caco, mas sempre fica uns pó pequeno no chão e se você andar sem chinelo, pode espetá os pé. Cuidado.

Aí lá vou eu, culta, chique, bela e modesta para Campo Grande, onde pessoas e plurais convivem harmoniosamente. Sem perceber, acabo dizendo à caixa do supermercado, enquanto reviro a bolsa, que nunca me lembro em qual lugar da bolsa coloquei as moeda, porque a gente vai recebendo as moeda e jogando dentro da bolsa, e na hora de pegar acaba confundindo com as chave. E eu nunca me lembro de comprar um troço pra guardar as moeda. Notando a cara de horror da moça, disfarço, comentando que vou colocar duas sacola para embalar a garrafa de água mineral, porque essas sacola são muito porcaria, uma vez eu estava subindo uma lomba com uma garrafa em cada sacola, aí as água caiu no chão e saíram rolando e eu correndo atrás delas (eu SEMPRE conto essa mesma história – real, aliás, ocorrida após uma compra no Sendas do Leblon, no Rio, quando morei lá- todas as vezes em que  embalo água mineral de 1,5 litros com duas sacolas plásticas).

Esse tipo de conversa causa uma inevitável expressão de espanto em qualquer pessoa (principalmente desconhecida, acho que os conhecidos nem prestam mais atenção no que eu falo e não percebem…risos…) que ouça, estupefata ao ver aquela moça tão bem arrumada, parecendo tão educada, culta, simpática (e – sempre – modesta). Me esforcei muito para evitar comer os “ésses” dos plurais, mas é um sacrifício grande demais para que eu possa resistir. Ou talvez porque…no fundo, no fundo eu goste desse jeito tosco e livre de falar. Essa coisa transgressora e atropelada, dramática e apressada, que não tem nem tempo de pluralizar palavras…um discurso democrático, no qual se permite tranquilamente que o artigo não concorde com o substantivo, afinal de contas, cada um tem direito a sua própria opinião, ninguém precisa ser obrigado a concordar com ninguém. Nem o pronome com o substantivo, nem o sujeito com o verbo. Tem sujeito que quer discordar, ué! E se alguém quiser discordar do sujeito, tem toda a liberdade de fazê-lo.

Ninguém tem língua presa no Rio Grande do Sul, devido à liberdade linguística que existe neste país (sim, porque o Rio Grande é o meu país, colega!). Na verdade a éssefagia (hábito de engolir “ésses”) é uma prática proposital, para celebrar, a cada frase pronunciada, a mais pura e perfeita democracia e liberdade léxica. Não mais me envergonho de tal analfabeto hábito, agora que descobri sua nobre origem e seu louvável objetivo. Me falta apenas conseguir transformar essa explicação em um curto e convincente texto para decorar até minha próxima viagem a Campo Grande.