Calçada para quê?

calcadasp

As calçadas de São Paulo são feitas para a plantação de postes de luz, árvores e placas diversas. Nelas também crescem rampas esquisitas que saem das casas das pessoas e que servem para colocar carros nas ruas. As calçadas também servem para colocar lixo, dentro ou fora de sacos plásticos, para que a equipe de limpeza pública possa retirar. Ou não.

Nunca ocorreu aos fazedores de calçadas desta cidade que elas deveriam servir para que pedestres pudessem caminhar. Muito menos que, às vezes, esses pedestres viriam sobre elas de cadeiras de rodas ou empurrando carrinhos de bebê. Para os fazedores de calçadas paulistas, os pedestres devem (assim como os carros, as cadeiras de rodas e os carrinhos de bebês) andar no asfalto, sempre atentos para que carros, motos e bicicletas não passem por cima deles.

Exceção, é claro, para os bairros de classes altas e um ou outro bairro mais antenado com as necessidades dos bípedes (e quadrúpedes também, por que não?). Nesses, há calçadas suficientemente largas para que pessoas, árvores, postes , rampas, lixos e placas possam coexistir harmoniosamente.

Na Zona Norte, porém, essas exceções são bem reduzidas. [Na área onde eu moro, além de tudo o que já mencionei, também há um fator complicador: inclinações do terreno. Escolhi uma região bem alta da cidade, por receio de alagamentos (a gente vem de fora e relaciona São Paulo a trânsito e alagamentos), então aqui tem algo que os gaúchos chamariam de “lomba”. Muitas lombas. Algumas ruas são quase verticais, a ponto de eu pensar seriamente em comprar um equipamento de escalada e usar as rampas das garagens como apoio para a subida. Mas essa é outra história.]

A prefeitura deveria ver? Alguém deveria legislar sobre isso? Alguém deveria fiscalizar?  Não há fiscalização para impedir esses abusos calçadísticos, então calçada em São Paulo é terra de ninguém. A desculpa é sempre a mesma: a cidade é muito grande, então é impossível controlar tudo. As calçadas têm vida própria, elas simplesmente nascem assim. E se alguém reclamar, elas podem ser vingativas, então deixem como está.

A vantagem é que parei de implicar com pedestres no meio da rua. Se em Porto Alegre isso não tem a menor explicação científica (portoalegrenses andam no meio da rua, mesmo com calçadas enormes), aqui em São Paulo lugar de pedestre é no meio da rua.

Para mulheres e para quem convive com mulheres

diaMEssa foto não é de hoje, porque hoje estou com uma baita sinusite, com carinha imprópria para as fotos (os gaúchos diriam que foi porque saí no frio com o cabelo molhado…aliás, diriam, não, dizem! Tenho um gaúcho em casa me dizendo isso, e já estou acreditando…rs). Veja como são as coisas…não coloquei essa foto no Instagram quando tirei porque achei que tinha ficado meio esquisita. Mas sob a perspectiva do que eu vi no espelho hoje, ela ficou muito bonita, aí resolvi colocar no blog…rs… Tudo é mesmo uma questão de perspectiva.

Sabe quando sua cabeça parece pesar mais do que você e seus olhos ficam apertados como se você estivesse com sono, ainda que não esteja? Pois é, assim estou eu, mas me cuidando para poder estar amanhã 10h no Parque da Juventude (se você não sabe o que vou fazer lá amanhã, entra no site do “Dia Universal da Mulher” para ver do que se trata. Aproveita e procura o endereço de onde vai ser o evento na sua cidade, porque eu vou falar dele depois e você vai ficar triste por não ter ido…rs). Finalmente fazem um evento legal aqui na Zona Norte e eu não vou poder ir? Vou, sim! Nem que seja com cara de sinusite…rsrs…

O “Dia Universal da Mulher” se trata (olha aí, eu disse que não ia falar, mas acabo sempre falando!) de um movimento pela valorização da mulher. Mas não aquelas coisas feministas de sair na rua com cartazes e gritando palavras de ordem, porque isso não resolve o que realmente importa. Assistindo aos vídeos e vendo os depoimentos das mulheres, percebi que me identificava com a maioria. Eu já passei por quase tudo o que elas falam, em maior ou menor grau, exceto abuso físico. Cobranças, insegurança, desvalorização… Só quem venceu essas coisas sabe o quanto não foi fácil. Mas também sabe que é possível. São lutas que travamos contra nós mesmas todos os dias e nos tornamos pessoas mais fortes e melhores ao vencê-las. Mas nem todas vencem. E meu interesse, além do meu próprio crescimento, é claro, é poder ajudar outras mulheres a vencer. Por isso eu não perco esse evento de jeito nenhum.

Estava olhando o site e encontrei esse texto da Cristiane, que faço questão de colocar aqui, esperando que ele tenha em você o mesmo efeito que teve em mim. Em cada linha, eu via uma mulher. Eu via todas as mulheres. Fiz uma viagem ao meu passado, à minha história, à história de minhas amigas, à história das mulheres que conheço e que já conheci. Fiz uma viagem à história de tantas mulheres que não conheci pessoalmente, mas sobre as quais já li…biografias que nos fazem ficar com raiva lá na metade porque elas fizeram escolhas erradas, porque elas não se enxergavam, porque elas não faziam a menor ideia de seu próprio valor.

Elas…

Cristiane Cardoso.

Elas se entregam para qualquer um que lhes dê “amor”

Elas aceitam abuso emocional, físico e verbal por “amor”. E as que não aceitam, não conseguem sair dessa situação devido aos filhos, às condições financeiras ou até mesmo às ameaças de morte.

Elas morrem na cama de cirurgia por causa da pressão que existe para serem perfeitas e terem um corpo escultural.

Jovens com anorexia porque querem ser como as celebridades e modelos que o mundo dita ser O REFERENCIAL para a mulher.

Elas são trocadas por mulheres mais jovens e bonitas.

Elas são descartáveis para muitos homens.

Elas cresceram na carreira, mas ficaram sós e não conseguem ser felizes.

Elas foram abusadas quando criança ou jovem, e carregam essa marca para a vida adulta.

Elas se acham superiores aos homens, mas inferiores as outras mulheres.

Elas são impulsivas e precisam comprar roupas e sapatos para se sentirem melhor consigo mesmas.

Elas dependem da opinião alheia

Elas são escravas do que a moda diz.

Elas se vestem de forma sexy para chamar atenção e ter um pouquinho de “valor”, mesmo que seja à custa do próprio corpo.

Elas se vendem na prostituição.

Elas se vendem na pornografia.

Elas não sabem ser mães porque não tiveram uma mãe presente.

Elas não respeitam os homens porque a figura deles em suas vidas foi distorcida através do abuso.

Elas pensam que merecem a vida infeliz que têm.

Elas são escravas de suas emoções.

Elas se odeiam e por isso não conseguem amar.

Elas acham que a mulher virtuosa é uma ficção porque, na verdade, não conseguem ver a própria capacidade.

Elas abusam de substâncias como o álcool, as drogas ou os medicamentos psicotrópicos para estarem insensíveis à realidade.

Sobre Romances

romances

Por causa do trabalho, que me exige outras leituras, não tenho lido romances recentemente. E quando leio, não gosto o suficiente para fazer uma resenha positiva, nem odeio o suficiente para entrar no “livros que não são o que parecem”. São aqueles livros que vivem no limbo. Nem são ruins, nem são exatamente bons.

Mas como encontrar um romance legal? Bem, como nem sempre tenho tempo de fazer mil comparações de resenhas (e…bem, vocês sabem que os critérios do pessoal que faz resenha lá fora são diferentes dos nossos, então eu tenho que ficar analisando as resenhas…), geralmente entro em uma livraria, leio a contracapa, as orelhas do livro, a introdução e as primeiras vinte páginas. Se me interessar, talvez eu leia alguma página do meio. Se parecer legal, dou uma espiada no final para ver se alguém morre…hahaha… (digamos que Nicholas Sparks me deixou traumatizada e não quero repetir a experiência). Se bem que não vou deixar de ler um livro bom só porque o autor resolveu fazer uma chacina no final, tenho que pesar as outras impressões.

Basicamente, gosto de livros como – e eu uso sempre esse exemplo ao falar de romance porque, para mim, é O exemplo – “Amor de Redenção”. Quando terminei de ler a última página deste livro, eu não estava chorando. Eu estava pensando em tudo o que tinha lido. Fiquei pensando nele vários dias e tentando analisar a história, pensando nos personagens… É realmente uma marca profunda a se deixar em um leitor. É isso o que eu procuro em um bom livro. Claro – e alguém vai falar – ah, mas existem livros que são só entretenimento. Claro que sim. Mas porque é entretenimento tem de ser meramente emocional? Eu optaria por um livro de suspense, de ficção científica ou policial. Prefiro exercitar meu cérebro – e não meu coração – ao ler um livro. Para exercitar meu coração, eu ando na esteira.  Mas cada um sabe o que faz com seu tempo.

Posso elencar três exemplos do que devemos evitar (se encontrar isso em um livro, fuja para as montanhas):

1 – Caso você procure resenhas de um determinado livro e constate que 98% dos leitores dizem algo como “chorei convulsivamente” ou “derramei lágrimas do início ao fim, esse não é um livro que mereça o seu tempo. Você vai alimentar a sua emoção e possivelmente vai chorar também. Não que um bom texto não possa emocionar, mas se isso for tudo o que as pessoas tiverem para dizer do livro, a probabilidade de que seja bom é muito pequena.

2 – A moça é casada e se apaixona instantaneamente por outro homem, e o autor jura que o amor é verdadeiro (oi, Nicholas Sparks). Mentira. Eu não perco meu tempo com histórias de amores que surgem do nada. Amor não brota da noite para o dia feito feijão mágico. Quer condicionar seu cérebro a uma forma errada de ver as coisas?

3 – O livro é todo sobre pornografia, satanismo, bruxaria ou anjos. Ok, não vamos fazer uma inquisição e achar que todo livro que tem uma ou outra eventual cena de sexo ou  algum pano de fundo de seres mitológicos (como vampiros, zumbis, faunos e outras criaturas mitológicas) são do mal. O problema é com livros que falam excessivamente sobre sexo (ou sobre relacionamentos baseados em sexo, tipo 50 tons de cinza) ou que usam a história como desculpa para falar de forma distorcida sobre coisas que existem (como satanismo, bruxaria, anjos, demônios e Deus). Tudo o que distorce coisas que são importantes para você não deveria ocupar o seu tempo.

 

Por falar nesse último item, dia desses li um estudo que mostrava que ao ler ficção, o cérebro responde como se estivesse vivenciando aquela história. Sério, o cérebro entende que você está vivendo aquelas coisas. Como isso pode não moldar o comportamento das pessoas? Isso me lembra algo que li sobre como a literatura e o cinema distorceram a forma do ocidente entender o amor…a ficção é muito mais poderosa do que se imagina para moldar a forma da sociedade enxergar o mundo.

(A propósito, eis a resposta a quem lê minha resenha do filme Noé e, indignado porque queria assistir ao filme sem peso na consciência, diz que “é só um filme”. Profunda ignorância a respeito da influência do entretenimento ao moldar o comportamento e a forma de entender a sociedade e – no caso – Deus e a história bíblica.)

E eu gostaria de pedir a vocês algumas sugestões de romances que vocês tenham visto por aí e queiram que eu leia para resenhar (ai, que medo de pedir isso…hahaha). Lembrando que considero romance qualquer narrativa de ficção com mais de 100 páginas, não precisa necessariamente falar de amor (o nome “romance” não tem a ver com amor, mas com o período histórico em que esse gênero literário se popularizou, o “Romantismo”).

Podemos entender melhor nossa sociedade por meio da literatura de ficção que ela produz. Como pensamos, o que fazemos, o que esperam que façamos. Então talvez eu comece a resenhar mesmo os livros que estão no limbo, para fazer essa análise de como nossa sociedade pensa. Vou ser execrada por alguns…rs. Mas fica a critério de vocês, pode ser uma boa forma de entender como ler o mundo.

 

*A imagem é meramente ilustrativa, tá?

Vanessa Lampert

Quer ler todas as resenhas? Clique aqui.

 

PS: Mesmo os livros que eu já li, gosto de reler antes de resenhar. É que eu leio diferente quando leio para resenhar…rs.  Só que desde o ano passado eu entrei em um período em que preciso ler coisas mais técnicas e que se relacionem com o trabalho. Mais ou menos o que a Patricia falou sobre José esta semana.

PS2: Antes que alguém pergunte, tenho conversado com duas amigas (que vocês conhecem) a respeito da gente começar a produzir romances saudáveis, com a nossa forma de enxergar as coisas. Amor em Ruínas, da Cristiane, vai sair já com essa visão, e mais projetos virão no futuro. :-D

*Post originalmente publicado no blog da Cristiane Cardoso. Clique aqui para ler a postagem original.

Noé – o pior filme do mundo

Noe_cartaz_naoNoe_cartaz_nao

Assisti ao filme Noé e me senti enganada pelo trailer (leia mais sobre isso no texto que escrevi para o blog da Cristiane). Para quem, mesmo assim, ainda tem curiosidade sobre o filme, segue a sequência. Se você ainda quer assistir, eu sugiro que leia esse texto antes, até o fim…a menos que você não tenha nada mais para fazer com o dinheiro do ingresso e com as duas horas e meia de sua vida, que o filme lhe sugará, e que não voltam nunca mais. Garanto que você lerá esse texto em bem menos tempo do que isso. E certamente se divertirá mais. :) O filme é arrastado, sombrio e com graves problemas de ritmo. Quando você pensa que vai engrenar, desacelera. E quando você acha que vai ter algo interessante, aparece uma cena confusa qualquer. Então, eliminei essas coisas mais chatas e fiz as sequências de cenas, para dar um panorama da coisa. Talvez algo pareça sem sentido, mas é porque não teve sentido mesmo:

O Criador fez o homem à Sua imagem e semelhança. O homem escolheu desobedecer, ao dar ouvidos a uma serpente e comer o fruto proibido (que pulsava como um coração. Primeiro momento em que eu ri no filme). O Criador, então, puniu o homem, expulsando o casal Adão e Eva do Jardim do Éden, condenando os dois a se esforçarem pela comida. Ao ver isso, um grupo de anjos bonzinhos, mas meio abobalhados, que sabia que havia algo de bom no homem (afinal de contas, era a imagem do Criador), ficou com pena da humanidade e resolveu descer para ajudar (a imagem deles é de uma silhueta de luz. O tipo de efeito especial que a gente sabe que em poucos anos vai parecer ridículo para um olho treinado). O Criador entendeu como traição e puniu aqueles anjos, fazendo com que eles se tornassem parte da Terra. (Já que – teoricamente – estamos falando da Bíblia, lembremos que: Anjos caídos = demônios)

Eles eram luz, mas a partir deste momento, se tornaram gigantes de pedra, fisicamente deformados e tortos (mas com um luzinha lá dentro). Mas eles são legais. Eles ensinaram ao homem tudo o que sabiam a respeito da Terra, porque eram bonzinhos e queriam ajudar. Se tornaram os Guardiões e acolheram os filhos de Caim, mas foram traídos por esses homens malvados, que desvirtuaram aquilo que eles haviam ensinado. E ainda se voltaram contra eles! Demônios, as vítimas inocentes.

Os filhos de Seth (o outro filho de Adão e Eva), eram os “preferidos” do Criador, e mais civilizados. Noé era um deles. Os filhos de Caim mataram o pai do pequeno Noé e roubaram uma pele de cobra que ele usava para fazer um ritual estranho de “transferência do direito de primogenitura”, algo como tornar-se protetor do meio-ambiente. Corta para a cena de Noé adulto, com seus filhos pequenos, observando plantinhas. Um bicho que parecia um cachorro com escamas aparece ferido por homens miseráveis e famintos, meio bestiais, mas que só querem comer o animal. Os filhos de Caim. Desesperado, ferido, caído no chão, um deles pergunta: “O que você quer?” E Noé, malvadão, responde: “Justiça” – e mata o indivíduo. Esse Noé era vingativo. Carnívoros devem morrer.

A essa altura do campeonato você já percebeu que esse cara não é o Noé que você conhece. Então vou chamá-lo de “Nãoé”. :-) Nosso amigo Nãoé tem uma mulher e três filhos pequenos: Sem, Cam e Jafet. O local é tipo um deserto, sem árvores, terra seca, nada de vegetação. Mesmo assim, de alguma forma ninja, Nãoé é vegano.

Nãoé sonha com gente morta debaixo dágua e entende que o Criador destruirá o mundo. Sabe que tem que fazer alguma coisa, mas não sabe o quê. Como viu também no sonho uma montanha, que é onde mora (sozinho) o avô centenário (originalmente todo mundo era centenário), Metusalém, segue para lá com a família. No caminho, encontra um vilarejo destruído e uma criança ferida, Illa, única sobrevivente, quase da idade de seu filho Sem. Eles adotam a menina. A esposa de Nãoé diz que ela vai sobreviver, mas será estéril (deve ter feito um ultrassom pré-histórico, pois não sei como seria possível descobrir isso por um simples corte na barriga, em uma região que provavelmente só pegaria o intestino…).

Se livram de outro grupo de malvadões porque encontram aqueles demônios gigantes de pedra com problemas de coluna. Os demônios gigantes ficam desconfiados e não aceitam ajudar a família. Eles não gostam dos humanos, porque os humanos desobedeceram ao Criador (demônios, como todo mundo sabe, gostam muito do criador…). No entanto, um desses gigantes volta durante a madrugada para ajudá-los a escapar e segue com eles. Na verdade, todos os personagens do filme são muito mal construídos. Os únicos personagens que despertam alguma empatia no público são os demônios. A gente chega a sentir pena deles, pois parecem injustiçados.

Metusalém é uma espécie de bruxo. Dá um chazinho alucinógeno para Nãoé, que alucina com a Arca. Não ouve nada, nenhuma instrução. Apenas vê a arca e sabe que tem que construir aquilo para se livrar do dilúvio. Metusalém também dá a Nãoé uma semente mágica do Éden e ele a planta na terra seca. Quando os outros demônios vêm levar o demônio traidor, veem água brotando do chão, entendem que Nãoé realmente falou com o Criador e resolvem ajudar.

Então… Uma floresta cresce em cinco minutos (do superfeijão mágico do Éden) e Nãoé vê ali a madeira para a sua Arca. Mãos à obra! A família começa o trabalho, mas quem realmente faz a Arca é o diabo e seus demônios!! Em dez anos, concluem o trabalho.

Eu gosto de filmes de fantasia. Estou escrevendo um livro que pode ser categorizado como fantasia. Não tenho o menor preconceito com isso. Então, a certa altura do filme, tentei abstrair, para ver se como entretenimento de fantasia a obra prestava. Imaginei que aquele não era Noé, era Joaquim. O Joaquim da Arca.

Joaquim da Arca vai buscar esposas para seus dois filhos no meio dos humanos esfomeados e os vê matando animais e arrastando mulheres para trocá-las por comida, em uma barbárie primitiva. Então, ele se convence de que nenhum humano merece viver, nem mesmo sua família, e decide não buscar esposas para Cam e Jafet (Sem se arranjou com a irmã postiça, Illa Hermione, cover da Bella, do Crepúsculo), o que deixa o adolescente Cam revoltado – e com razão, mas Joaquim da Arca não está nem aí para ele. Começa a se tornar egoísta e fanático. Se despersonaliza e agora acredita que a missão deles é salvar os animais, que são inocentes, e manter a Terra limpa dos humanos. Humanos, a sujeira do universo.

Arca pronta, os animais começam a entrar e são colocados para dormir com uma fumaça-sonífero mágica (haja sonífero para deixá-los dormindo por meeeeses). O malvadão (que ninguém me convenceu que é realmente malvado, é só um miserável líder de homens famintos que comem carne. Tipo a maioria dos humanos que conhecemos hoje) descobre que a arca está sendo construída e resolve ir também porque, afinal de contas, eles também merecem sobreviver. Você ficaria com pena deles, se conseguisse sentir alguma coisa por algum personagem do filme (além dos demônios com cara de dó).

Aí, vamos ao anticlímax total: lembra daquela cena do Trailer? Aquela que eu achei superforte, em que o líder dos inimigos diz a Noé: “Tenho soldados à minha disposição e você sozinho me desafia?” Então, Noé, confiante e tranquilo, responde: “Eu não estou sozinho”.

Pois é…no trailer parecia que ele estava falando de Deus. No filme, quando ele diz isso…adivinha? Se levantam atrás dele todos aqueles demônios de pedra. Quem quer que tenha montado aquele trailer estava realmente a fim de fazer uma piadinha de mau gosto.

Então…os “malvados injustiçados” voltam para o acampamento e se preparam para a batalha. Na hora de ir para a batalha, o chefe dos malvados tenta falar com o Criador, pois não entende por que ele está sendo rejeitado. Pede várias vezes para o Criador falar com ele, mas esse tal Criador não fala com ninguém nesse filme, só se tomar o “boa noite Cinderela” do vovô Metusalém. Como o chefe dos malvados não tem chazinho alucinógeno, pega sua bazuca recém-construída (porque tinha arma de fogo naquele tempo, né?) e segue para a batalha, gritando ensandecido.

Totalmente sem noção do momento ideal para se fazer as coisas, Cam resolve sair para caçar esposa no meio dos filhos de Caim. Despenca em uma vala cheia de corpos apodrecendo e ali encontra uma moça suja e descabelada. Ela está com fome e ele oferece farelinhos de qualquer coisa dentro de um lenço sujo. É amor à primeira vista. Eles ficam lá, abraçados naquele lugar romântico (afinal de contas, o mundo nem estava acabando), até que começa a chover e ele foge com ela em direção à Arca. No caminho, ela prende o pé em uma armadilha e fica gritando, desesperada, porque os malvadões resolvem surgir do nada no exato instante. Também no exato instante, Joaquim da Arca aparece e puxa Cam, deixando a pobre garota gritando no chão, até ser pisoteada e esmagada pelos malvadões (sério). Naoé não está nem aí.

Calma, calma, um pouco antes. Quando Cam sai para caçar esposa, Illa, namorada/esposa/irmã adotiva de Sem sai atrás dele e encontra o vovô Metusalém na floresta. Sem também sai atrás dela, em busca do irmão. Metusalém dá um passe que a deixa com dor de barriga e meio ninfomaníaca. O mundo está acabando, mas Ila ataca Sem no meio do caminho, totalmente sem noção do momento ideal para se fazer as coisas. Depois  voltam, sorridentes, para a Arca. Tio Joaquim pergunta de Cam. Ops. Esquecemos Cam, estávamos fazendo coisas que não se deve fazer no meio da floresta mágica à beira do fim do mundo. Joaquim Nãoé resolve sair correndo atrás do filho pirado e o encontra com a futura garota pisoteada (e essa parte eu já contei no parágrafo anterior).

Corta para a galera tentando ultrapassar a barreira de Guardiões de pedra e sendo devidamente esmagada por eles, enquanto Joaquim e Cam conseguem passar sem ser esmagados (que pena). Segue uma cena de batalha mequetrefe, com gigantes de pedra esmagando dúzias de humanos de uma só vez para defender a Arca. O demônio chefe é morto, pede ao Criador que o perdoe e vira novamente um bichinho de luz, saindo em formato de anjo luminoso, para o céu, enquanto o outro (que tem cara de coitadinho) diz, com voz abobalhada: “o Criador levou ele para casa!” Então…todos eles querem defender a Arca para serem levados de volta para o céu…

Joaquim continua matando homens malvados alucinadamente enquanto a chuva cai. Enfim, quando todos os demônios de pedra já se transformaram em borboletinhas luminosas e foram para o céu, uma das coisas mais inúteis do filme acontece: o chefe dos malvados consegue entrar na Arca. Ele fica lá, por alguns meses, extinguindo parte da vida animal da Terra e sendo cuidado pelo abobalhado Cam (todo mundo é meio abobalhado nesse filme). Ele faz um discurso sobre como os humanos são superiores e foram colocados para subjugar outras espécies. Arranca com os dentes a cabeça de um réptil, mostrando que comer carne crua é coisa de malvado.

Um milagre, então, acontece: a estéril Illa descobre que está grávida ao fazer um teste de farmácia com uma folhinha mágica. Momento ruim, já que poucos dias antes ouviram todo um sermão do Joaquim Nãoé sobre a queda do homem e como o Criador quer se ver livre dessa praga. Contam a novidade ao patriarca, estragando todo o plano perfeito para a extinção da humanidade. Ele fica revoltado e tem mais um surto psicótico. Acredita que o Criador quer que ele mate o bebê, se for menina, para evitar que faça mais homenzinhos.

Obviamente, como o leitor já adivinhou, vai ser menina. Mas a partir daí o filme vira um dramalhão mexicano, com tentativas de manipulação emocional com texto raso, chegando ao ponto da esposa de Noé dizer a ele que se ele matar o bebê, ela vai odiá-lo, desprezá-lo e nunca o perdoará. Ela diz isso gritando e babando. Não há fé ou demonstrações de grandeza interior. E o Deus do filme é totalmente ausente, omisso, intolerante e cruel. Mais ou menos o que pensam dEle os que interpretam a Bíblia de modo raso e infantil. O que existe em Noé é um psicótico fanático e descontrolado, falando de um Criador que só existe em sua cabeça. E todas as coisas são tão rasas e absurdas que não me conquistaram nem como filme de ficção.

O tempo passa, a tensão mexicana aumenta, ninguém mais conversa na Arca, todo mundo odeia Noé. Ele quer matar o bebê, Sem quer matar Noé e Cam está alimentando o chefe dos malvadões que também quer matar Noé. Como sempre, tudo acontece na mesma hora: o malvadão fica forte e tenta matar Noé, com a ajuda de Cam; Illa entra em trabalho de parto e tem gêmeas e Sem resolve matar Noé, just in case. No momento mais dramático, a arca encalha em uma pedra, derrubando Sem. Cam mata o malvadão, evitando a morte de Noé e eu fiquei sem saber por que raios esse cara apareceu na arca…provavelmente para extinguir os cachorros escamosos e os lagartos de cabeça vermelha.

Bem, Noé não se abala com toda essa coisa de meu-filho-me-traiu-alimentou-meu-inimigo-e-tentou-me-matar e mesmo assim sai, com uma faca, para matar as recém-nascidas (malfeitas por computador). Ele está decidido a esfaquear a cabeça das criancinhas e a mãe vai deixar, mas ao ouvi-la cantar a musiquinha que ele cantava para ela na infância e que o pai dele cantava para ele, ele sente amor no coração e o amor vence o ódio. O ódio, no caso, era a ordem do “criador”. A esposa de Noé está feliz, pretende dar uma menina para Cam e outra para Jafet no futuro.

Deprimido por não ter conseguido ser malvadão até o fim, Noé se isola e resolve beber, longe da família (depois de esperar as uvas nascerem do lado de fora da arca, é claro). Cam vê o pai pelado e deprimido e resolve ir embora. Afinal de contas, ele já é adolescente. Vai ter que esperar mais uns dezesseis anos até poder casar com uma das sobrinhas. Melhor andar errante pelo mundo desabitado, não é mesmo? Com uma mochila pós-diluviana nas costas, ele sai, em direção a lugar nenhum, para se encontrar com ninguém.

Illa dá uma nova versão da história para Nãoé, que aplaca seu sentimento de culpa. Segundo ela, tudo foi um teste do criador, para ver se Nãoé saberia fazer a escolha certa. Era tudo uma questão de Nãoé decidir se eles eram ou não dignos de serem salvos. Nãoé fica satisfeito com a explicação e volta para a família. Ninguém mais é feliz, nem inocente. Todo mundo matou ou pensou em matar. O criador faz um show pirotécnico com arcos celestes coloridos.

O troço termina com o ritual de “enrolar a pele da serpente no braço” e toda aquela lengalenga de “passar o direito de primogenitura” para as duas bebês que não fazem a menor ideia do que aqueles adultos tanto falam.

O filme termina, sem que você tenha muita ideia de qual foi a intenção. De qualquer forma, não é um filme bíblico. É um filme cujos personagens têm nomes de personagens bíblicos e que, por coincidência, fala de um dilúvio. As semelhanças com a narrativa bíblica terminam aí. O problema é que quem não conhece a Bíblia – ou conhece superficialmente, começa a achar que o filme é bíblico e que as coisas foram mais ou menos assim. E pode começar a pensar que os demônios não são assim tão maus e que Deus não é assim tão bom.

Como fantasia, é chatíssimo. Como ficção filosófica, muito raso. Como adaptação bíblica, é totalmente falso. Logo, foram as duas horas e meia mais desperdiçadas de toda a minha vida. Ganhou do último Transformers, aquele em que o babyliss da moça suporta toda a sequência confusa de luta. Felizmente, em poucos anos, o público vai rir dos anjos luminosos e dos bebês de GC à la Crepúsculo, então é um filmeco de vida curta. Mas que foi um desperdício de milhões que me deixou muito, mas muito indignada com Hollywood, isso foi.

Se você não leu meu texto no blog da Cris, sugiro que leia (clique para ler). Lá eu falo a respeito da minha teoria sobre quem realmente escreveu o roteiro…

Drama Queen

Dropped mask

Eu achava engraçado dizer que era dramática. Um pouquinho exagerada em minhas reações diante das situações, como um gatinho. Gatos são dramáticos. Feche uma porta e ele fará um escândalo para passar por ela, como se fosse muito importante. Como se a vida dele dependesse disso. Eu era um pouco assim.

De tempos em tempos, algum comportamento meu começa a me incomodar a tal ponto que ele tem de ser corrigido imediatamente. O drama foi um desses. Fiz teatro por algum tempo, quando eu era criança achava que seria atriz, então essa característica de levar tudo para algum extremo emocional era encarada com naturalidade. Quando comecei a escrever, achava que essa tendência era até importante, porque me ajudava a transmitir emoção ao leitor. No entanto, quando você começa a passar por situações realmente sérias e dramáticas, a coisa parece perder a graça.

Se você está reagindo dramaticamente, provavelmente o que está acontecendo em sua vida não tem importância nenhuma. Porque se tivesse e você reagisse com drama, provavelmente morreria. É isso. Não há possibilidade de suportar por muito tempo uma situação difícil usando recursos emocionais. Não há. Fique desesperado, fique preocupado, fique histérico, chore, se descabele, mas não conseguirá sustentar isso por muito tempo, até porque não resolve coisa alguma. Esse tipo de reação é totalmente inútil. Pode te levar a uma depressão, o que te dará mais um problema para lidar: antidepressivos são caros, cheios de reações adversas e não resolvem o problema principal.

A única forma de lidar com uma situação realmente grave é mantendo a calma e agindo racionalmente. E – principalmente – tentar manter a leveza e buscar a paz interior. Sem paz interior, você não consegue enxergar nada racionalmente, nem manter leveza nenhuma. Já percebi que quando as coisas estão pesadas, difíceis, sendo arrastadas, é porque não estou agindo (ou reagindo) da forma certa. Se eu entrego a situação para Deus e procuro olhar de uma forma positiva para encontrar uma saída, ou para lidar com algo potencialmente dramático, vai ser leve para mim. O mundo pode estar se despedaçando ao meu redor, posso estar no meio de uma guerra, mas conseguirei lidar com leveza, ver claramente, enxergar uma saída  e sair inteira.

Porque tudo na vida passa, meu amigo. Tudo passa. Você só se enfia em novela mexicana se você quiser. É você quem escolhe. Existem romances super piegas e ridículos escritos por pessoas que querem arrancar lágrimas dos leitores mais emotivos. Eu leio e acho ridículo. A maioria, infelizmente, chora e acha lindo. Mas esse tipo de literatura é descartável. Serve apenas para dar dinheiro ao romancista. Já bons romances contam histórias consistentes para marcar os leitores, não necessariamente para fazê-los chorar. Os personagens são bem construídos, vão a fundo no espírito do leitor. Ao final, a leitura te obriga a pensar, não a chorar. E assim são as boas histórias da nossa vida, aquelas que construímos com a ajuda de Deus.

Porque Deus não escreve novela mexicana, meu amigo, nem escreve Júlia e Sabrina. Deus escreve coisas que valem a pena viver. Por isso eu me revolto quando percebo que estou dentro de uma novela mexicana. Não quero nem saber. Não vou chorar, não vou me descabelar. Vou resolver essa bagaça porque preciso de uma história consistente e inteligente, não abobrinha para emocionar o leitor. Fazer o leitor chorar é muito fácil e muito raso. Meu Escritor preferido não é assim.

Então, eu procuro formas alegres de ver as coisas – porque alegria não faz chorar – e procuro formas leves de encarar coisas pesadas – porque assim você consegue tirar o melhor delas e encontrar saída. Chorei muito nesta vida, vivi muito drama, estive em novelas mexicanas ridículas e mal escritas. Aliás, mais ridículas e mal escritas do que as mexicanas, algo tipo novela da Globo. E quando consegui pegar uma dessas tramas escritas por um escritorzinho de meia pataca e, por meio da mudança do meu pensamento, da minha forma de encarar, transformá-la em uma história interessante, tirando das mãos do escritorzinho de quinta e passando para as mãos do melhor Escritor do universo, percebi que poderia fazer isso com todo e qualquer drama.

Olhando os problemas de cima, não do meio deles. Não me permitindo mais ser cozida com os problemas no sopão do horror. A escolha é sua, meu amigo. O problema está aí e chorar não vai livrá-lo dele. Mergulhar nele não vai livrá-lo dele. Você quer curtir o problema ou se livrar dele de uma vez por todas? Se quer se livrar, pare de ruminá-lo como um bovino. Pare de alimentar os pensamentos negativos em relação a ele. Pare de vê-lo como se fosse grande e intransponível e difícil e absurdo e real e eterno e…dramático. Ele é ridículo. Ele é passageiro. Ele é pequeno. Ou você coloca a sua certeza nele e afunda, ou você coloca sua certeza na solução e sai dessa historinha mal escrita. A escolha é sua.

Lembret e postar via smartphone

Aí eu percebo que tem um erro no título. Por algum motivo, o celular ignorou a digitação do “e” e o título foi com a palavra “Lembret”. Não sei se essa palavra existe em uma língua chique como o francês. Se existisse, eu teria meu erro disfarçado e pareceria mais culta do que realmente sou. Mas, se bem me conheço, viria aqui e corrigiria, anyway.

Foi meu primeiro post escrito no celular. Eu sou uma criatura que veio da pré-história e meu relacionamento com smartphones é relativamente recente. Nos conhecemos por causa do trabalho, porque preciso ter acesso à internet 24 horas, caso alguém me peça alguma coisa que eu precise saber que foi pedida imediatamente (muito embora provavelmente eu não consiga fazer e entregar imediatamente, preciso saber que foi pedido e planejar como a coisa será feita).  Até pouco tempo eu realmente acreditava que celulares deveriam apenas fazer e receber ligações e mensagens de texto (sendo que tenho mais apreço pela segunda função do que pela primeira) e estranhava aqueles trambolhos brilhantes que tinham a pretensão de substituir um computador, sob um ou outro aspecto.

Então, recentemente percebi que celulares devem fazer o que quer que eles saibam ou tenham sido projetados para fazer. Se alguém quiser fazer um celular que faça mais do que eu acho que ele deveria fazer, tem todo o direito e eu não tenho nada com isso. Posso olhar para ele como algo diferente e aceitá-lo como ele realmente é – veja que lindo. Então, resolvi dar ao meu smartphone o privilégio de escrever um post em meu blog…hahaha. Aí ele decidiu que meu título ficaria melhor em um pseudofrancês. Lembret.

E eu percebi que talvez celulares com telinhas pequenininhas talvez não sejam as melhores ferramentas para postagem de coisas em blogs. Embora eu não tenha desistido. Quer coisa melhor do que poder escrever na rua e postar fora de casa? Então, não estranhem se aparecerem posts curtinhos com títulos em línguas desconhecidas. Literatura comporta neologismos. Talvez seja um sinal de que eu tenha que voltar este blog para a literatura, afinal. :-)

Poucos minutos e um lembrete

Tenho dez minutos para escrever o post de hoje. Já me acostumei à sensação de estar sempre correndo, mas se tem uma coisa que não faço e nunca farei é me acostumar a fazer as coisas sempre do mesmo jeito.

Estou sempre mudando alguma coisa, ajustando aqui e ali, e nunca cheguei a um ponto de achar que faço alguma coisa maravilhosamente bem a ponto de  achar que não preciso mudar nada, ajustar nada.

Estou trabalhando em uns três pontos bem importantes que pretendo abordar melhor nas próximas postagens, mas queria deixar um lembretezinho aos meus leitores, para que já comecem a pensar a respeito: as coisas têm de ser leves. Não importa o tamanho do drama que você esteja vivendo, entrar no modo novela mexicana só irá piorar as coisas.