Sobre escrever

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Estava me lembrando de que, quando comecei a escrever, lá em 1802, uma das coisas que eu mais gostava de fazer era sequestrar livros e apostilas dos meus irmãos (sem que eles soubessem) e ficar fazendo as propostas de redação, estudando cada tópico. Não me lembro muito bem o que tinha nessas apostilas, mas, para mim, elas eram mágicas. Eu fazia tudo de uma forma tão livre que nem parecia que estava estudando. Para mim, era uma brincadeira. E, desprovido do peso de uma matéria escolar, o texto era meu amigo.

Mesmo quando comecei a ter aulas de redação na escola, ele continuou a ser meu amigo. Um dos poucos que se manteve do meu lado durante toda a infância e adolescência. Acho que a facilidade que tenho com a escrita hoje vem dessa liberdade que eu tive com ela desde sempre. Eu brincava de escrever. Fazia testes com a escrita. Escrevia sobre qualquer coisa. Escrevia só por diversão. Escrevia para criar minhas histórias sozinha, como quando brincava de boneca.

Às vezes não tinha nenhuma pretensão de que alguém lesse, outras vezes escrevia textos para que fossem lidos. Fazia jornais e informativos para meus irmãos e minha mãe. Em meu diário, eu me apresentava como inventora (era fã do Professor Pardal rs). Até pouco tempo atrás, achava que nunca tinha inventado nada. Mas inventava, sim. Inventava revistas de moda. Fazia panfletos com máximas que eu inventava. Inventava palavras. Fazia trocadilhos. Brincava com palavras que tinham significados semelhantes. Inventava significados novos a palavras conhecidas. Qualquer palavra poderia ser vítima de minha insuportável criatividade. Elas deviam me odiar.

Mas, se você não teve essa liberdade na infância ou na adolescência, nunca é tarde. Nunca é tarde para fazer uma nova amizade. Nunca é tarde para liberar sua criatividade no papel. Nunca é tarde para desenvolver essa intimidade. Pelo contrário, fazer isso na vida adulta, de forma consciente, deve ser muito mais eficaz. Passei anos achando que todo mundo fazia isso e que a maioria das pessoas escrevia como eu. Aprimorei muitas habilidades sem ter a menor noção de que estava aprimorando alguma coisa. Quando você faz algo de modo consciente, consegue tirar o máximo proveito daquilo e também desenvolve segurança e autoconfiança. Você sabe que aprendeu. Sabe o que aprendeu. Sabe que ultrapassou um limite.Demorou um pouco para que eu tivesse consciência do que fazia e desenvolvesse essa segurança.

Então, se você quer aprender a escrever, está tendo uma oportunidade de ouro hoje, não importa quantos anos tenha nem qual sua formação – se é que tem uma. Procure um material didático de redação. De preferência, um livro para crianças ou para preparação de vestibular. Você deve ter um antigo em casa. Se não tiver, não é difícil encontrar algum em uma livraria, loja de livros usados ou na estantevirtual.com.br Sem a pressão de um professor, provas ou avaliações, você pode ler as explicações e fazer as propostas de redação apenas para brincar.

Pode, também, carregar um caderno ou uma cadernetinha e uma caneta por onde for. Quando estiver no ônibus, na fila do banco, na sala de espera do dentista ou esperando aquela reunião começar, escreva. Escreva o que está pensando. Escreva sobre algo que você leu. Escreva o que você está vendo. Descreva as pessoas. Escreva sobre algo que lhe chamou atenção. Escreva, simplesmente. Todos os dias.

Claro, você pode fazer isso em um smartphone, na tablet ou no computador. Eu gosto de manter a opção analógica, primeiro porque escrevo menos quando uso a caneta. Depois, porque acho que uso outras áreas do cérebro rs. E também porque não quero perder o hábito.

É uma atividade um pouco solitária, mas que nos ensina a apreciar nossa companhia e a valorizar os detalhes que estão ao nosso redor. Encontrar um jeito novo de descrever algo conhecido, achar outro ângulo para aquilo que estamos habituados a ver, imaginar o mundo pelos olhos de outra pessoa, entender o ponto de vista dos outros, entender melhor os outros… Esse exercício amplia nossos horizontes. Amplia nossa mente, nossa compreensão de mundo. Se eu pudesse, convenceria todo mundo a colocar um pouco de escrita criativa no seu dia a dia. Garanto que o mundo se tornaria mais interessante.

PS. Sem contar que, se redação for sua maneira de se divertir no tempo livre, quando precisar fazer uma em um concurso ou trabalho, não será sofrimento algum.

PS2. Acho que a coisa mais importante que você deve ter em mente é parar de se hipnotizar com a ideia de que não consegue aprender ou que é muito difícil. Você consegue qualquer coisa que acredita que consegue. E isso não é papinho de autoajuda, isso é como o cérebro funciona.

Quando água se move sob seus pés

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No começo, foi como se eu tivesse perdido o controle do mundo. De repente, ele começou a girar de forma acelerada, em outra rotação, e tentei fazê-lo parar para eu descer, mas foi inútil. Então, resolvi tentar me adaptar. Talvez se eu tivesse aprendido a surfar, teria sido mais fácil. Manter-se em pé em cima de uma onda louca feita de água, que tenta se erguer e atirar seu corpinho minúsculo contra uma pedra qualquer. É mais ou menos o que a gente faz nesses períodos mais doidos da vida. É um desafio e você tem de ser firme, mas flexível. Nem tudo vai sair do jeito que você quer, mas sua obrigação é fazer o melhor que pode. O seu melhor talvez não seja o que você idealizou, mas o importante é que seja excelente. O melhor que consegue fazer naquele momento. Você pode aprender a fazer as coisas de uma maneira diferente por causa da dificuldade. Pode aprender que a forma do seu colega fazer um determinado trabalho (e que talvez não seja a maneira que você considera a melhor/mais perfeita/que você faria) tem suas qualidades (e talvez seja até mais eficiente do que a que você achava perfeita…).

Pode aprender tanta coisa se parar com essa mania idiota de querer ter o controle do universo. Não se deixe levar pela correnteza, mas não sofra por cada onda que não conseguir controlar. Lembre-se de que pode contar com a ajuda de Quem anda sobre as águas, acalma as ondas e, se a coisa fica muito complicada, abre um caminho impossível no meio do mar. Se sua confiança está em Quem sabe o que está fazendo, é muito mais fácil se manter de pé em qualquer onda. Ao parar de reclamar ou de sofrer por não ter o mapa do deserto, você aprende a tirar proveito até das dificuldades. O que antes era uma muralha à sua frente se torna uma parede ao seu lado, para delimitar o caminho e ajudá-lo a não se desviar.