Tradição, hospitalidade e sonegação de impostos

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Em setembro, o jornal italiano Il Fatto Quotidiano denunciou: um número considerável de conventos e monastérios da igreja católica que funcionam como hotéis sonegam milhões de Euros em impostos na Itália. A reportagem descreve esses hotéis como uma mistura bizarra de hotel de luxo, freiras e imagens religiosas. O ambiente favorece a valorização dos locais como uma opção de hospedagem com apelo histórico.

Domus Sessoriana, por exemplo, era um mosteiro do século 10, anexo à Basilica di Sante Croce in Gerusalemme. Hoje, um hotel cuja diária chega a custar 140 euros (cerca de seiscentos reais), tem wi-fi, ar condicionado, lavanderia, restaurante, piscina… No site do hotel, o ambiente é vendido como um dos maiores atrativos do local: “Única em seu gênero, concilia o charme da história que a atravessa com a funcionalidade de um hotel. Venha se envolver nesta atmosfera sugestiva!” — convida a propaganda.

Enquanto se aproveitam da estrutura religiosa para cobrar valores de mercado, em concorrência desleal com outros hotéis (que não contam com edifícios medievais como atrativo), esses estabelecimentos se declaram ao governo como “abrigos sem fins lucrativos” para se isentarem de impostos. Um “abrigo sem fins lucrativos” que cobra seiscentos reais por noite…imagina se tivesse fins lucrativos! O rombo nos cofres públicos chega a 800 milhões de euros ao ano (algo em torno de 3,4 bilhões de reais).

Questionado durante entrevista à rádio portuguesa Renascença, o Papa deu uma resposta bem política. Disse que às vezes “a tentação do deus dinheiro” pode falar mais alto. Segundo ele, não há problema em um convento funcionar como hotel “desde que pague imposto, caso contrário, o negócio não é limpo”. O comentário de um leitor do jornal Il Fatto Quotidiano resume meu pensamento ao ler a declaração do Papa: “então, por coerência, pague!”. Mas, obviamente, até agora ninguém pagou nada.

Há menos de dois anos, o mundo estava chocado com as denúncias do vatileaks, documentos que escancararam o que havia de mais podre dentro do Vaticano: disputa de poder, corrupção, conspirações e denúncias de lavagem de dinheiro — inclusive da máfia. Difícil acreditar que haja, realmente, interesse em negócios limpos. Os escândalos que culminaram com a renúncia de Joseph Ratzinger e com a eleição de Jorge Bergoglio para o papado foram convenientemente abafados pelo esforço midiático de marketing em torno do novo papa. Porém, de vez em quando temos esses vislumbres da realidade: o Vaticano continua o mesmo.