Lampertop Sobre várias coisas

Aprendendo a dirigir II – o retorno à auto-escola

Série originalmente postada em minha extinta coluna Sala de Estar, da Revista Paradoxo.

Aprendendo a dirigir II

O retorno à auto-escola

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[25/04/2007]


Quem acompanha esta coluna há algum tempo deve se lembrar desta crônica, em que eu relatava minha experiência corrente e desastrosa nas aulas práticas de direção. Pois bem, retorno hoje, um ano e cinco meses depois, para dar continuidade à história. Como se percebe naquele relato, eu estava indo mal, mas com uma incrível vontade de aprender e superar o medo.

Infelizmente, o segundo instrutor não era tão paciente quanto eu imaginava, e logo mostrou que sua falta de simpatia escondia uma grande facilidade de se estressar. Eu errava, ele se estressava, eu ficava nervosa e errava de novo. No meio do trânsito, ele me dizia: “Você viu o que fez?” Sem tirar os óculos e sem olhar para mim, não me dizia o que raios eu havia feito de errado e eu continuava sem saber. Me sentia a criatura mais burra e inútil da face da Terra e o cara mal falava comigo.



Perto da vigésima aula, ele sugeriu que eu suspendesse tudo e procurasse a psicóloga da auto-escola. Aceitei e fui conversar com a mulher. Ela perguntou da minha vida, eu contei toda a saga Vanesseana, para, ao final, ela me perguntar se eu não achava que estava me dedicando demais aos outros e esquecendo de mim, não gostou da atenção que dispenso ao meu marido, nem da minha mania de falar de planos para o futuro como se o casamento fosse para sempre. Saí de lá tentando entender o que isso tinha a ver com o fato de eu não conseguir aprender a dirigir. Não voltei mais.



No mês seguinte, meu marido foi internado com peritonite e passamos trinta dias no hospital. Quase no final desse período, tivemos a visita de um amigo dele, que me convenceu de que o problema era o instrutor, não eu, e passou o telefone de uma auto-escola que tinha um instrutor especializado em pessoas com medo de dirigir. Acabei não telefonando.

O tempo passou, e no início do ano minha cunhada me contou que estava tendo aulas de direção, apesar de já ter carteira de motorista, para ter mais segurança e perder o medo de dirigir. Conversamos bastante a respeito e no final das contas soube que ela já conseguia levar meu sobrinho à escola, guardar o carro na garagem e não matar ninguém no caminho. Me animei e resolvi voltar às aulas práticas, tentei ligar para o tal instrutor, mas ele agora só trabalha com quem já tenha carteira.

Procurei na lista telefônica e escolhi a auto-escola que dizia “especializada em pessoas nervosas” (CFC Dornelles). Para a minha surpresa, não precisei pagar tudo de novo, pude aproveitar minhas aulas teóricas, o que já foi grande coisa. Tive que repetir o exame médico e o psicotécnico, a prova teórica e prática. A prova teórica está muito mais fácil do que antes, e acertei 28 das 30 questões. Preferi, por razões óbvias, marcar algumas aulas práticas antes, perguntei qual era o instrutor mais acostumado com alunas histéricas e me indicaram o Claudio, fui orientada a marcar apenas uma aula, se gostasse dele, marcaria mais, se não, tentaria outro.

Aí vai a dica: não façam isso. Uma aula não dá tempo para nada, melhor marcar duas de 50 minutos, seguidas (a chamada “aula dupla”), menos estressante e mais fácil de notar se o cara é legal ou não. Apesar da correria, gostei muito do instrutor, é um cara muito inteligente, tranqüilo, simples e brincalhão, me deixou super à vontade, nem perto dos estressados da outra auto-escola. Voltei à recepção e marquei mais vinte aulas, ou melhor, dez aulas duplas, antes que alguém passasse à minha frente.

Como o cara é super tranqüilo, não se estressa, não me deixa histérica, conversa, brinca e gosta do que faz, estou conseguindo aprender e me livrar do pavor. Descobri que não tinha nem tenho medo de dirigir, na verdade, desenvolvi uma insegurança absurda por conta de um profissional mal preparado.

Lendo os comentários deixados pelos leitores, percebi que o maior problema é justamente o despreparo dos instrutores, que acham que tudo ali tem de ser tão óbvio para nós quanto é para eles, e não têm paciência para lidar com quem nunca trocou uma marcha na vida. O Claudio é um cara que gosta do que faz, tem um dom para ensinar (é um ótimo treinador), sabe se colocar no lugar do outro, respeitar a falta de experiência do aluno. Qual é a dificuldade disso? Por que é tão difícil encontrar um instrutor assim? Se o cara não tem paciência para lidar com quem está aprendendo, por que não trabalha em outra coisa?

Marquei mais oito aulas e farei a prova prática no dia 9 de maio. Coloquei na cabeça que não pensarei na prova, se não estiver segura, vou fazendo aulas até estar bem para fazer o teste. Ah, e semana passada tive um estalo: eu também sou um carro! No meio do trânsito, a gente tem a impressão de ser uma pessoa no meio de milhões de carros. Aquele trambolhão é só um troço que atrapalha. Só agora caiu na ficha que eu sou tão carro para eles quanto eles são para mim, então fiquei mais segura. Teremos mais uma quarta-feira e a prova do Detran é na outra quarta, portanto, o assunto continua. Torçam por mim.

PS: Texto originalmente postado em 2007 …aguarde continuação amanhã.

.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Post Navigation