Postergeist

Enquanto Poltergeist, segundo a Wikipédia, é “Um evento sobrenatural que se manifesta deslocando objetos e fazendo ruídos”, Postergeist é um fenômeno sobrenatural que se manifesta deslocando afazeres para um indefinido “depois” e gerando ansiedade e entulhamento de tarefas.

O foco dessa perturbação pode ter qualquer idade, qualquer gênero, qualquer formação. Postergheist é um fenômeno bastante democrático, que não faz acepção de pessoas, embora tenha uma inclinação especial para se manifestar em indivíduos portadores de TDAH (transtorno de déficit de atenção com hiperatividade). O fenômeno postergeist costuma ter seu pico de atividade durante a adolescência, mas em alguns indivíduos agrava-se na idade adulta, com o aumento de responsabilidades e tarefas.

A duração do postergeist é indefinida, mas costuma ser confundido com assombrações, ao torturar o indivíduo diariamente com aparições dos afazeres que ele tem postergado, cobranças externas a respeito desses afazeres e consequências aparentemente fatais para cada tarefa adiada.

O indivíduo começa, já na infância, deixando para depois a resolução dos exercícios propostos pela professora. Porém, o que o fenômeno postergeist não permite que a pobre criatura descubra, é que o “depois” não existe, nunca chega, é uma data abandonada em uma dimensão separada da nossa por alguns poucos dias. Por isso sempre achamos que o “depois” está perto, mas nunca conseguimos alcançá-lo.

Mais tarde, o postergeist fará com que o indivíduo acredite que pode adiar a resposta aos e-mails recebidos para um momento em que ele esteja suficientemente descansado para dar àquela pessoa a atenção que ela merece e escrever uma resposta bem legal, completa, escrita com cuidado. No entanto, ao enviar aquela tarefa para a dimensão paralela de “depois”, ela se perderá para sempre e jamais o momento de responder ao tal e-mail chegará. Deste modo, o remetente não receberá a resposta e se sentirá desprezado por não ter merecido nenhuma atenção de seu destinatário, justamente o que o tal destinatário postergador não queria que acontecesse.

Irremediavelmente acometida pelo postergeist, a miserável criatura enovela-se em um adiamento pior do que o outro, procrastinando para um amanhã que nunca chega, enrolando-se em um novelo de tarefas não concluídas e outras sequer começadas, como um garfo desesperado para livrar-se do espaguete gira descontroladamente sobre seu próprio eixo até sufocar-se com toda a macarronada, a ponto de ter de equilibrá-la e não conseguir depositar a massa em nenhuma boca aberta, por maior que ela seja.

Quando chega a esse ponto lastimável, o desprezível ser atropelado pelo postergeist já não sabe mais o que fazer para lidar com tantas tarefas atrasadas, tantos e-mails não respondidos, tantas pessoas chateadas, tantos convites não atendidos, tantas coisas acumuladas. Não existem mais desculpas disponíveis, os afazeres não têm a decência de esperar e continuam a avolumar-se. A louça lavada retorna à pia, novamente suja, pronta para formar nova pilha. Os sacos de lixo não aprenderam ainda a se colocar sozinhos dentro do cesto na calçada, a despeito de já terem passado por isso diversas vezes. Não existe nenhuma forma de transferir para o computador a resposta que seu cérebro cria àquele e-mail recebido assim que o lê. Não tem ninguém que viva exclusivamente para lembrá-lo das consultas médicas que ele precisa marcar, ele não é capaz de absorver por osmose o conteúdo dos livros que quer ler, nem pode transferir o trabalho que está em sua mente para sua mesa, assim, com um abrir e fechar de olhos. Começa a achar realmente injusto o fato de sua mente precisar de um corpo tão lento e depender de um dia tão curto para executar tudo o que ela sabe que deve fazer.

“Depois eu compro isso”, “depois eu conserto aquilo”, “logo que eu puder farei tal coisa”, “responderei assim que conseguir um tempo maior”, “outra hora eu escrevo isso”, “prometo que vou procurar aquilo, só não sei quando”…e cotinua a postergar.

O Postergeist, como todo bom fenômeno sobrenatural malévolo, só irá embora depois de muita perseverança do desafortunado homenzinho vitimado pelo mesmo. Pode-se usar a orientação bíblica: “Resisti ao diabo e ele fugirá de vós”. Resistir à vontade aparentemente incontrolável de postergar e fazer agora o que você gostaria de fazer depois é o primeiro passo para livrar-se de uma vez por todas dessa opressão.

Lembre-se que o Postergeist aloja-se no cérebro do indivíduo fazendo com que ele acredite que não será possível fazer absolutamente nada agora. Isso ocorre porque o Postergeist alimenta-se de cada tarefa enviada à dimensão paralela de Depois, que é o único lugar no qual ele pode assumir uma forma física. Em Depois, o Postergeist usa os afazeres adiados como fonte de nutrição para seus filhotes, ainda em fase larval. As larvas de Postergeist precisam dos nutrientes encontrados nas tarefas não realizadas para que cresçam fortes e espertas e passem a aterrorizar outras pessoas em nossa dimensão. São mais ou menos como os mosquitos, que sugam o sangue para nutrir suas crias, que nascem e crescem só para sugar o sangue para nutrir suas crias e assim sucessivamente ad infinitum. Como os mosquitos, apenas as fêmeas Postergeist sugam nossas tarefas. Para isso elas se utilizam de nossas emoções e de nossas sensações. Sentimos que estamos cansados e deixamos as coisas para depois…ou então procrastinamos por irritação, por desatenção, por preguiça, por medo, por qualquer outro motivo que não seja um pensamento racional.

Quando pensamos, nos forçamos para resistir àquele impulso de postergar e sabemos que ele é, na verdade, resultado da manipulação de nossa mente pelo fenômeno Postergeist, percebemos que não nos vai cair um braço, nem o pescoço se fizermos agora o que nós temos de fazer. Deixar de adiar não fará com que se destrua o universo como o conhecemos. Pelo contrário, só assim encontraremos equilíbrio e tranquilidade para fazer o mundo girar e as 24 horas de um dia serem suficientes para abrigar todos os afazeres que temos programado.

Ainda estou na fase de libertação do fenômeno postergeist, tentando lutar contra ele, com todas as minhas forças. No meu caso, tive uma porção de motivos realmente nobres para me encontrar agora nessa fase garfo emaranhado no espaguete, mas não posso usá-los como desculpa para permanecer enroscada e não sair do lugar. Ainda não sei o que fazer com aquela porção de coisas que acabei não fazendo, não sei se ignoro, finjo que não existem e recomeço, daqui para diante, ou se revisto-me da paciência de um monge venusiano e faço, como me recomendou minha mãe, aos poucos, uma coisa de cada vez, até ter feito todas as coisas, ou pelo menos mais do que eu faria caso me desesperasse e adiasse compulsivamente.

Já tentei fazer todas as coisas que eu não fiz para me livrar logo delas e poder fazer as outras, mas enquanto eu faço o que passou, as outras coisas novas se acumulam. Se eu fizer aos poucos, posso fazer novas e antigas, intercaladas, e talvez surta algum efeito. Se eu não fizer, tenho de ter coragem de encarar as consequências…já agi assim, encarei as consequências, deu tudo certo, mas perdi uma porção de amigos.

Atualmente estou dando prioridade às tarefas novas, essas eu não deixarei mesmo de fazer. Só o que me preocupa é o que fazer com a vida que eu tinha antes, ou mesmo com minha vida social, esses detalhes que eu deixo para depois e que eu sei que não deveria, pois tudo passa muito rápido e de repente já faz seis meses que eu fiz um determinado exame e até agora não levei para a médica. Quero me livrar definitivamente do Postergeist, e minha agenda tem sido uma boa aliada, mas talvez haja, em algum lugar, um gupo de caça-fantasmas que consiga aprisionar, de uma vez por todas, esse terrível inimigo. No entanto eu sei que a solução para esse problema não pode vir de fora, não há possibilidade de responsabilizar outra pessoa pelos meus problemas, pela piora ou melhora deles. Eu tenho de continuar a me esforçar e lutar contra a força destrutiva do Postergeist.

Nesta luta solitária que empreendo, sequer me sinto no direito de pedir a compreensão dos amigos, pois eles têm sido compreensivos há alguns anos. Basta-me que saibam que meu esforço tem sido recompensado. Não, ainda não consegui ensinar minha louça a tomar banho sozinha (embora continue tentando), nem mesmo construí uma cópia andróide para me substituir em eventos de amigos nos quais sei que minha presença seria importante, também não consegui ainda uma forma de transferir o conteúdo dos livros que aguardam minha leitura para a minha cabeça, mas pelo menos tenho tido mais clareza e menos desespero na hora de agir contra o postergeist. Ainda que em alguns momentos eu novamente caia em tentação e postergue, enviando as tarefas urgentes para o Depois, às vezes substituindo por outras menos importantes, nem mesmo isso me faz desistir, pois volto a me reerguer e enfrentar mais uma batalha, na esperança de em breve me livrar, de uma vez por todas, deste fenômeno maligno, como já me livrei de tantos outros.

E antes que alguém sugira….não, eu já tentei, mas ele não sai na sessão do descarrego. É só com o esforço e a mudança de hábitos, mesmo…com a renovação da mente…não é um fenômeno espiritual, é um fenômeno sobrenatural comportamental. Exige mudança onde a maioria de nós não admite mudar: nos hábitos, nas verdades arraigadas, no comportamento, nas emoções, na personalidade. Dói um pouquinho, mas nada que uma dipirona não resolva.

Posted by Vanessa Lampert

Um comentário sobre “Postergeist

  1. “(…) como um garfo desesperado para livrar-se do espaguete gira descontroladamente sobre seu próprio eixo até sufocar-se com toda a macarronada, (…)”

    Adorei.

    Sua solução é exatamente como a minha: sempre que o postergheist começa a se insinuar para mim, eu penso “é mentira, não vou morrer se fizer isso agora. você não me engana mais”. Estou cansada demais para estudar a essa hora, não vai me fazer bem. Preciso dormir mais, não posso ir para a academia assim. Vou morrer? Nada. S’imbora.

    Mas às vezes as tarefas se acumulam e fica complicado MESMO dar conta de tudo. Quando percebi que eu estava nesse estágio, comecei a recorrer a um cuidadoso planejamento que me permita de fato descansar o que preciso e dar conta do recado. Muita disciplina!

    Vou-me, Vanzita. Bom vê-la. Beijos.

Deixe uma resposta para Mme. R. Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *