Cordilheira

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Ela fechou dezesseis anos em duas malas e deixou na porta de casa. Assim, sem bilhete de despedida. Sem avisar que a partir daquela noite ele não dormiria mais em casa. Não que dormisse, na verdade. Perdeu as contas das vezes em que ele não aparecera. Cansou de perguntar, questionar, cobrar, insistir. As desculpas que ele inventava não passavam mais pela garganta. E apodreceram desde que começaram a esfarrapar. De lá para cá, ele não inventava mais. Não dizia nada. Simplesmente entrava pela porta, como se fosse um estranho. Como se a voz dela o irritasse. Ela se irritava.

As malas, do lado de fora. Como se elas fossem as culpadas de tudo. Exiladas no corredor, gritando por socorro. Fechou a porta. Atravessou a sala de paredes brancas e geladas, vazias, como ela se sentia agora. Na cozinha, a pilha de louça suja denunciava o descaso. Era seu protesto silencioso ao se sentir ignorada. Mas agora, com as malas na porta e a alma lavada, ela lavaria a louça, também. Ninguém mais a ignoraria. Sabia do seu valor. Não precisava de homem algum para ser feliz. Não era mais tão jovem, mas tinha sua independência, poderia muito bem escolher o seu futuro. Sem ele.

A pilha de louça se espalhava pela pia e já não era justo chamá-la apenas de “pilha”. Era uma montanha. Uma cordilheira. Tantos copos, pratos, panelas, talheres e coisas indecifráveis, amontoados e mergulhados em lodo, fungos e gosmas que deviam ter se formado na pré-história. Aquela louça parecia ter servido a um batalhão de homens das cavernas, se eles usassem louça naquela época. Mas era só dos dois. Não se lembrava há quanto tempo estava lá, mas era só dos dois. Detergente na esponja. Espuma. A água e o copo. Como aquilo foi acontecer? Como tudo chegou naquele estado?

No início, era o verbo. Amava. Ponto final. Ele era o centro de seu universo, ela o admirava e queria agradá-lo. Ele a admirava, elogiava – às vezes com palavras, às vezes com os olhos. Começaram a namorar ainda muito jovens, mas queriam crescer juntos. Quando vinham as brigas, ela se calava. Tentava evitar atrito a qualquer custo, e escondia os problemas, acreditando que depois que se casassem tudo se resolveria. Se casaram. E a avalanche começou.

Não, ela não sabia como tinha chegado naquele estado. Mal conseguia ver a colher por baixo daquele limo. Uma gosma marrom que a deixava enojada. Aquelas coisas cresceram ali, do nada. Ninguém colocou uma semente de gosma no meio da louça. Não tinha nenhum pedaço de gordura de rinoceronte encravado em algum garfo. Era louça normal, de pessoas normais, que comem comida light. E a gosma crescia.

Nunca tiveram grandes problemas. Eram sempre as discussõezinhas que surgiam em um dia e eram sufocadas pelo silêncio. Elas ressurgiam dali a algumas semanas, como monstras em filmes de terror. Geralmente maiores do que da primeira vez. A sensação de que estava sendo injustiçada fazia com que tentasse punir o marido. Nos primeiros anos, com o silêncio. Nos últimos anos, com gritos e cobranças. Ele não poderia fazer isso com ela, não poderia dizer tal coisa, ela precisava disso, ela queria aquilo… E ele… bem, ela não sabia exatamente o que ele pensava. No início, ele tentava falar. Agora, se calara.

Sacrificou seus dedos e renunciou ao nojo e à sua dignidade, por uma dignidade maior e mais duradoura. Retirou o maldito limo com as mãos e passou a esponja com detergente naquela colher. Derramou cloro na cordilheira de louças podres. Um sopro de ardência fechou seus olhos. Gotas salgadas na pia.

Quando começou a puni-lo sem explicar o que acontecia dentro dela? Quando desistiu de tudo? Deixar aquelas coisas na pia faria com que se lavassem sozinhas? Será que outro relacionamento não repetiria o fracasso desse? Por que pensava que alguma coisa poderia ser diferente? Será que foi uma boa ideia jogar cloro nesse negócio?

Correu para abrir a janela. Pronto! Não bastava a gosma pré-histórica de filme de terror, ela tinha que criar uma atmosfera com fumaça tóxica. Assim que ele abrisse a porta, pensaria que ela havia se suicidado. Algo como “tome suas malas, vá embora, agora eu vou me matar e a louça suja fica com a casa”. Riu.

Voltou para a louça. Já tinha muita coisa no escorredor, mas a pilha parecia do mesmo tamanho. Cordilheira. Quando iria acabar? Esponja. Detergente. Espuma.

No começo, aprendeu a cozinhar. Não foi fácil, mas tinha alguma coisa de amor em temperar o feijão, cozinhar o arroz e fritar um bife, e quanto maior era sua vontade de demonstrar o que sentia, maior era sua busca por novos sabores, novas texturas. Vê-lo se deliciar com o que suas mãos haviam preparado era sublime. Essa era a palavra. Su-bli-me. Encostava a ponta da língua nos lábios e dava aquele sorriso que era só dele. Como gostava da expressão satisfeita e dos olhos tranquilos com que ele a olhava depois do jantar! Ela sabia que, mais tarde, ele iria querer retribuir aquela satisfação da maneira que ele conseguia fazer. Que só ele conseguia fazer.

Dava raiva. Dava raiva daquele lodo, vontade de jogar a xícara no lixo. Vontade de jogar tudo no lixo e comprar louças novas. Mas de que iria adiantar se deixasse a louça nova na pia, acumulando restos não resolvidos? Gostava daquelas coisas. Gostava daquela história. Sacrificava seus dedos, renunciava seu orgulho por uma dignidade mais duradoura. As malas na porta. Já não sabia se queria aquele vazio na sala.

E quando ele a envolvia nos braços, a fazia se sentir segura. E entregue. Como se não precisasse de mais nada. Sabia que podia contar com ele quando estava bem. E sabia como fazê-lo ficar bem. Como fazia no começo. Quando começaram a reagir negativamente às reações negativas do outro? Quando aquela coisa nojenta começou a se espalhar? Aquele lodo que envolvia os pratos, copos e escondia os talheres, se espalhou pela casa e se colocou entre os dois. De repente, não estavam mais sozinhos. Era ele, ela, e o lodo que deixaram crescer. Ele não a ouvia mais, seus gritos eram muito altos. Ela não o via mais, o lodo era um espelho.

Parou de fazer o jantar e dizia que, se ele quisesse, esquentasse qualquer coisa no micro-ondas. Secretamente queria que ele se ajoelhasse em sua frente, pedisse perdão, implorasse pelo jantar e dissesse o quanto a comida dela era maravilhosa, o quanto o sentimento dela era indispensável, o quanto seu paladar ansiava pelo tempero que ela inventou quando se conheceram. Mas ele resmungava qualquer coisa e ia comer sei lá o que na frente da televisão. Ela foi trocada por um pedaço de pizza. Por uma Mac porcaria qualquer, pela marmita requentada de ontem. Nunca o viu suspirar por seu arroz.

Não conseguiria terminar tudo em um dia. Era impossível consertar em um dia o estrago feito durante sei lá quanto tempo. Levou dias, meses, anos para construir aquela cordilheira entre os dois, deixando crescer o lodo. Agora, precisaria ter paciência. O escorredor estava cheio. A pia, também. Mas talvez valesse a pena fazer um jantar. Nada muito espalhafatoso, para ele não estranhar. Algo simples, anunciando uma trégua. Não seria da noite para o dia. O inimigo não era ele, era o lodo. A gosma que tomara vida própria depois de anos de descuido. A vida não era da gosma, era dela. A tomaria de volta.

Não se importaria com o que sentisse ou achasse que sentisse. A espuma se desfazia com a água. Não jogaria nada fora. Nada. Não tinha o direito de salvar aquilo que tanto quis?

As malas na porta. As malas na porta. Fechou a torneira, secou as mãos, correu para a sala. Abriu a porta. As malas. Dezesseis anos. Sua vida era sua. Não precisava de homem algum para ser feliz, sabia seu valor. Mas queria sua vida. Tinha o direito de escolher o seu futuro. Com ele. Queria a vida que construiriam. Derrubar a cordilheira, destruir o limo. Fazer um jantar. À noite, seus braços. Talvez não esta noite, mas ela saberia esperar. Faria o silêncio, para ouvir sua voz. Queria ouvir sua voz. Ansiava por sua voz. Por sua vida. Por seu futuro.

As malas já dentro de casa. Trancou a porta, correu para levá-las ao quarto. Ele já estava para chegar.

Um comentário sobre “Cordilheira

  1. Joana Drumond disse:

    Fico impressionada e encantada com a maneira que você escreve! Gostaria de saber se você continuará esse texto, pois estou super curiosa como acontecerá os próximos fatos =)

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