Cristianismo puro e simples

Depois de tantas resenhas de livros ruins, eis que lhes trago um oásis no deserto. :-) A recomendação pública deste livro foi feita pelo Bispo Renato, neste post (clique para ler), e me convenceu rapidinho. “Cristianismo puro e simples” (Mere Christianity), da Editora WMF Martins Fontes, é leitura obrigatória para todos aqueles que se dizem cristãos ou se interessam pelo cristianismo.

Eu considero C.S Lewis um gênio da literatura. E não sou a única, é um consenso. Além de excelente escritor, ele era muito inteligente e tinha um raciocínio lógico fantástico. Foi ateu por muitos anos, e se converteu a uma fé bastante racional e segura. Ele era ateu de verdade, não ateu de modinha, como vemos hoje em dia.

Quer saber se o cara é ateu de verdade? Se ele odeia Deus, gasta seu tempo esculhambando Deus e os crentes, é raivoso e gosta de se mostrar superior, ele não é verdadeiramente ateu, só tem um problema pessoal com a ideia de Deus e quer fazer birra para chocá-Lo. Veja bem, eu não acredito em Coelhinho da Páscoa. Por que raios gastaria meu tempo falando mal do coelhinho da páscoa, rindo de quem acredita no coelhinho da páscoa, fazendo palestras para convencer as pessoas a não acreditarem no coelhinho da páscoa? Não seria ridículo?  O verdadeiro ateu não odeia algo que ele acha que não existe! Ele simplesmente não acredita. Mas tem boa vontade, está aberto, e quando conhece a Deus, deixa de ser ateu!

Este livro foi baseado em uma série de programas de rádio que ele fez durante a Segunda Guerra, explicando o cristianismo em termos simples. Sim, a explicação é simples, a linguagem é fácil e coloquial. No entanto, é impressionante observar que o que era simples, acessível e escrito para o cidadão comum naquela época, hoje talvez não seja compreendido com tanta facilidade por qualquer pessoa. Digo isso porque ele exige que seu cérebro acompanhe o raciocínio. Exige que a criatura raciocine, coisa que as pessoas hoje em dia não estão acostumadas a fazer. A sociedade deu uma emburrecida considerável nas últimas décadas. Cada vez mais nós, que preferimos pensar a viver pela emoção, nos sentimos alienígenas nesta sociedade. Mas você, que lê esta coluna, é uma pessoa que não tem preguiça de pensar e quer exercitar seus neurônios, não é verdade? Então vai gostar desse livro.

Ele consegue explicar com clareza os fundamentos da nossa fé. É a mesma fé, o mesmo Espírito! Eis uma raridade: encontrar um livro cristão verdadeiramente cristão. Até o entendimento dele sobre a trindade é o mesmo que eu tive há alguns anos, ao ler um livro de…física! …rs… (vou reler para fazer uma resenha aqui também…hahaha…me aguardem)

Sabe aquelas perguntinhas cretinas que te fazem de vez em quando, de “como é que Deus pode ser três e um ao mesmo tempo?” Então…essas e outras explicações estão lá, para quem quiser pensar.

Acho que esse trecho é o melhor resumo que já vi alguém fazer sobre o cristianismo:

O cristianismo concorda com o dualismo em que o universo está em guerra, mas discorda que seja uma guerra entre forças independentes. Considera-a antes uma guerra civil, uma rebelião, e afirma que vivemos na parte do universo ocupada pelos rebeldes.

Um território ocupado pelo inimigo — assim é este mundo. O cristianismo é a história de como o rei por direito desembarcou disfarçado em sua terra e nos chama a tomar parte numa grande campanha de sabotagem. Quando você vai à igreja, na verdade vai receber os códigos secretos mandados pelos nossos amigos: não é por outro motivo que o inimigo fica tão ansioso para nos impedir de frequentá-la.

Não é exatamente isso, amigos? Céus, é exatamente assim que a coisa toda funciona! Tem forma mais clara de condensar toda a extensa explicação sobre guerra espiritual? C.S Lewis trabalha muito com analogias, que é a melhor forma – na minha opinião – de explicar coisas aparentemente complexas e fazê-las acessíveis a qualquer pessoa. Faz parte da argumentação lógica. Isso faz com que a leitura desse livro seja tão prazerosa. Você vai se divertir, além de aprender muito.

Agora veja isso:

Quanto mais tiramos do caminho aquilo que agora chamamos de “nós mesmos” e deixamos que Ele tome conta de nós, tanto mais nos tornamos aquilo que realmente somos. (…) De nada vale procurar “ser eu mesmo” sem Ele. Quanto mais resisto a Ele e tento viver sozinho, tanto mais me deixo dominar por minha hereditariedade, minha criação, meus desejos naturais e o meio em que vivo. Na verdade, aquilo que chamo com tanto orgulho de “eu mesmo” é simplesmente o ponto de encontro de miríades de cadeias de acontecimentos que não foram iniciadas por mim e não poderão ser encerradas por mim. Os desejos que chamo de “meus” são meramente os desejos vomitados pelo meu organismo físico, incutidos em mim pelo pensamento de outros homens ou mesmo sugeridos a mim pelos demônios.

Eu li isso, boquiaberta, pensando em quantas vezes dei essa mesma explicação a tantas pessoas, explicando o porquê apenas a entrega incondicional do seu “eu” a Jesus faz com que você descubra quem você realmente é. Eu só me tornei eu mesma, só descobri quem eu era, depois que morri para mim mesma, depois que morri para este mundo, sacrifiquei minha vida para viver a vida dEle. Aí, sim, me libertei de todas essas influências e descobri o caminho para me transformar, dia após dia, na pessoa que Ele quer que eu seja. Que é quem realmente sou. Esse processo não tem fim, pois é um processo de aperfeiçoamento, mas somente quando se nasce de novo é que a coisa começa a ficar realmente divertida. A propósito, ele explica o novo nascimento, a substituição, todo o processo desde Adão e Eva…

O início do livro parecia um livro de filosofia, mas depois vai se abrindo para uma literatura de qualidade, com todos os seus elementos. Se eu colocasse aqui todos os trechos que achei fortes neste livro, ganharia o prêmio de maior resenha do mundo. Mas salvei diversos deles e vou fazer bilhões de posts sobre isso em meu blog…rs…com trechos do livro, não tem jeito, é daquelas coisas que você lê e quer compartilhar com todo o universo.

Mas Vanessa, esse livro não tem problema algum? Tem. Tem alguns. São ínfimos em relação ao todo, mas tenho que citar os mais importantes. Primeiro, quando ele diz:

A teologia é como um mapa. (…) No passado, quando havia menos instrução formal e menos discussões, talvez fosse possível passar com algumas poucas idéias simples sobre Deus. Hoje não é mais assim. Todo mundo lê, todo mundo presta atenção a discussões. Consequentemente, se você não der atenção à Teologia, isso não significa que não terá ideia alguma sobre Deus. Significa que terá, isto sim, uma porção de ideias erradas — ideias más, confusas, obsoletas.

Acredito que na época em que esse livro foi escrito (início da década de quarenta) isso fosse verdade. No entanto, hoje em dia a teologia é que tem levado muita gente sincera à morte espiritual, com uma porção de ideias erradas, más, confusas e obsoletas. Mas nada do que ele explica precisaria de qualquer estudo teológico tradicional, está tudo bem claro na Bíblia. E se alguém acha que a Bíblia é uma leitura muito complexa e que precisa de uma interpretação especial feita por grandes estudiosos, me desculpe, isso não é verdade.

Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos, e as revelaste aos pequeninos. (Mateus 11:25)

Basta ter o Espírito Santo, pois a promessa feita a respeito é que:

Quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade. (João 16:13)

O segundo problema do livro possivelmente é ligado ao primeiro. É a primeira e única vez que eu noto uma interferência das tradições religiosas do autor neste livro (já havia notado o mesmo problema em outro livro dele):

Por mais que você sofra nessa vida terrena, por mais que passe por purificações inconcebíveis depois da morte (…)

Purificações depois da morte, amiguinho? Segundo a Bíblia, morreu, morreu. Não tem essa de purificação depois da morte. Isso é ideia católica, que provavelmente a igreja Anglicana arrastou consigo. Desconsiderem.

O terceiro problema é:

Quando as tribulações chegam – doenças, problemas de dinheiro, novos tipos de tentação —, ele se decepciona. Aos olhos dele, essas coisas foram necessárias antes, para despertá-lo e fazê-lo arrepender-se; mas, e agora: por quê? Porque Deus o está obrigando a progredir ou subir a um novo nível (…)

Mais influência da religião. Doença não é tribulação, miséria não é tribulação. Tribulação é o que a gente passa por causa do evangelho, as perseguições, as dificuldades. Pode acontecer de Deus usar uma situação colocada pelo mal para que você “suba a outro nível”? Pode, mas não foi algo provocado por Ele, o que Ele fez foi usar o limão para fazer uma limonada. Se foi isso o que C.S Lewis quis dizer, concordo com ele. Mas se era a velha ideia religiosa de que doença é provação de Deus para que você progrida, isso já matou a fé de muitos crentes por aí. E matou os próprios crentes, também.

Mas como eu disse, esses são probleminhas minúsculos dentro de um livro excepcional. Apenas comento porque julgo necessário. Quando ele pensava dentro da Palavra de Deus, pensava com bastante clareza e lucidez. Mas infelizmente naquele tempo não existia o que temos hoje.

Abaixo, um trecho muito legal sobre amor (eu disse que não colocaria mais trechos, mas não resisti…rs…

Em primeiro lugar, quanto ao significado da palavra. “Caridade” hoje significa simplesmente o que antes se chamava “esmola” — ou seja, o que damos para os pobres. Originalmente, seu significado era muito mais amplo. (Você vai entender por que ela ganhou essa acepção moderna: se uma pessoa é “caridosa”, dar esmolas aos pobres é uma das coisas mais óbvias que ela faz, e, assim, as pessoas passaram a dar a esse ato o nome da própria virtude. A mesma coisa aconteceu com a poesia, cuja expressão mais óbvia é a rima. Ora, para a maioria
das pessoas, hoje, a “rima” é a própria poesia.) A caridade significa “amor no sentido cristão”. Mas o amor no sentido cristão não é uma emoção. Não é um estado do sentimento, mas da vontade: aquele estado da vontade que temos naturalmente com a nossa pessoa, mas devemos aprender a ter com as outras pessoas. No capítulo sobre o perdão, observei que o amor que temos por nós mesmos não implica simpatia por nós mesmos. Significa que queremos nosso próprio bem.
(…)

Veja se isso não é a fé que temos vivido!  A fé inteligente e sacrificial:

As únicas coisas que podemos conservar são as que entregamos a Deus. As que guardamos para nós são as que perderemos com certeza.

Vanessa Lampert

*ATUALIZAÇÃO: Este livro mudou de editora, agora ele tem uma nova tradução, capa dura, nova capa, uma tiragem maior e, consequentemente, melhor preço! Para ver, clique no link: https://amzn.to/2HahKVe

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PS: Eu acho o estilo dele muito parecido com o estilo do Bispo Renato. Como diz meu marido, são textos que dão “cócegas no cérebro”…rs…

PS2: Esse é para quem me perguntou se não existem livros cristãos bons de escritores de fora da IURD. Eis uma raridade…rs…

PS3: Outro problema desse livro é a editora. Alguém me explica por que raios escolheram essa capa sem graça para os livros do C.S Lewis (exceto as crônicas de Nárnia, essas ficaram caprichadinhas)? Todas são iguais, só muda o tom do fundo! Parece que a intenção é que ele não seja vendido, nem sequer visto! (Veja o item “ATUALIZAÇÃO” logo acima)

PS4: A série de “livros que não são o que parecem” não acabou, não! Tenho vários na fila! E cada vez chegando mais…hahahaha…

Originalmente publicado no blog Cristiane Cardoso. Clique aqui para ver a postagem original.