Série Aprendendo a Dirigir

A série mais comentada de minha extinta coluna na Revista Paradoxo, “Aprendendo a Dirigir” recebe novos comentários e acessos até hoje. Só agora me dei conta de que seria uma boa ideia reunir todos os links em um só post, para facilitar a vida daqueles que querem ler toda a saga.  Divirtam-se:

Aprendendo a Dirigir I:

http://lampertop.com.br/?p=1054

Aprendendo a Dirigir II – o retorno à autoescola:

http://lampertop.com.br/?p=1056

Aprendendo a Dirigir III – persistir é o lema

http://lampertop.com.br/?p=1058

Aprendendo a Dirigir IV – a saga continua

http://lampertop.com.br/?p=1063

Aprendendo a Dirigir V- o império contra-ataca

http://lampertop.com.br/?p=1061

Aprendendo a Dirigir VI – o examinador vive

http://lampertop.com.br/?p=1065

Aprendendo a Dirigir VII – a batalha final

http://lampertop.com.br/?p=1067

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Aprendendo a dirigir VII – A batalha final

Como os arquivos da minha extinta coluna na Revista Paradoxo desapareceram após remodelagem do site, aproveito o período de férias do Lampertop para agendar a publicação desta saga aqui…espero que ajude outras pessoas que estejam passando por situações parecidas…

Aprendendo a dirigir VII

A batalha final

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[22/06/2007]

Hoje era um daqueles dias em que tudo estava programado para dar errado, e se eu acreditasse nisso, teria dado, mesmo. Não consegui dormir cedo, tive aula às sete da manhã e consegui apenas três horas de sono. Fiz aula no mesmo lugar do exame, Intercap, ontem e hoje, o que foi muito importante para que eu me familiarizasse mais com as ruazinhas apertadinhas, todas iguais. Confesso que não estava muito confiante, não havia a menor razão para acreditar que eu passaria, exceto o fato de eu saber dirigir direitinho. O problema é que o exame prático não avalia se você sabe dirigir, se é um motorista prudente, se tem condições de ir para o trânsito, a única coisa que o exame, do jeito que é feito, com examinadores despreparados e regrinhas burras avalia é seu estado emocional no momento da prova. Se você estiver nervoso, reprova, se estiver calmo, passa, não importa o quanto dirija.

Eu realmente não acreditava que, naquele estado de nervos, teria algum resultado positivo. Cheguei em casa e dormi até o almoço, ignorando a outra aula que me tomaria toda a manhã. Ao invés de descansar, acordei exausta, pois tive os pesadelos mais horrorosos envolvendo trânsito. Sonhei, inclusive, que dirigia um ônibus estranho, e estava sentada em um banco ao lado do banco do motorista. Nem conto os malabarismos que tive de fazer para alcançar o freio e a embreagem, quando percebi que era eu a única motorista da coisa. Sonhei que havia sido multada pela Polícia Militar durante o exame, de madrugada, na chuva. Sonhei com conversões à esquerda, com mudanças de marcha, com baliza, com conversões à direita, com todos os erros e acidentes possíveis e imagináveis.

Acordei com o coração disparado como se toda aquela confusão onírica fosse real, então resolvi respirar fundo, tentar me acalmar, conversei com Deus, pedi para Ele preparar tudo direitinho e fazer o que fosse melhor para mim. Comi uma pizza feita pelo meu marido, comemoramos três anos de casamento, eu queria muito a carteira de motorista como presente nesta data especial, o que aumentava ainda mais a ansiedade.

Quando cheguei à auto-escola, todo mundo já havia ido para o exame – é um sinal – pensei, e já estava remarcando meu teste para a semana seguinte quando um garoto entrou dizendo que o Fernando, outro instrutor, combinara voltar para buscá-lo. Resolvi ir junto, e enquanto esperávamos, conversei com o rapaz. Ele estava muito, muito nervoso, era seu quarto teste. Finalmente, nossa carona chegou, o Fernando ficou na auto-escola esperando uma aluna retardatária e outro instrutor, o Diego, nos levou. Ele me contou, no carro, que o examinador era…o Adriano!

Para quem não se lembra, o Adriano é o examinador que não me deixou fazer o exame por meu nome estar abreviado, história contada no texto “Aprendendo a dirigir V”. Ao chegar, constatei que ele estava certo, era a mesma criatura com quem eu me desentendera há três semanas. O Claudio disse que eu poderia escolher outro examinador, pois já conversara com ele a respeito. Duvidando que ele pudesse ser profissional na avaliação, eu realmente estava entre fazer o exame semana que vem ou arriscar outro examinador. Encontrei colegas repetentes de testes passados, e todos reprovaram novamente, um a um. O garoto que veio comigo, que estava extremamente nervoso, passou. Ele disse que quando colocou na cabeça que se não desse, não teria problema, faria dez vezes até conseguir, se tranqüilizou. Eis aí todo o segredo.

Ouvi algumas pessoas reclamando de instrutores, dizendo que trocariam de instrutor, que tantos alunos de fulano passaram, tantos de beltrano reprovaram, e tive de interferir. Uma das coisas que aprendi nos desastrosos exames anteriores é: você pode ter o melhor instrutor do mundo, se não conseguir controlar seu estado emocional na hora do teste, não adianta nada. O trabalho do instrutor é importante para que você aprenda a dirigir direitinho, com confiança, sem medo. Ao chegar no teste, você deve estar tecnicamente preparado, ou não estaria lá. O trabalho do instrutor já terminou, ele não tem responsabilidade alguma a partir dali. Quem tem de trabalhar, então, é você. Se passar, é mérito seu, se reprovar, também.

O único profissional que realmente pode atrapalhar um exame é o examinador, que tem o poder de te tranqüilizar ou de te deixar mais nervoso durante o teste. Por isso ele deve ser inteligente, ter discernimento, domínio próprio e deixar a arrogância em casa, se a possuir. Felizmente ainda existem alguns (poucos) assim, que sabem o que realmente devem avaliar, levando sempre em consideração o fato de a criatura estar naturalmente apavorada.

Fiquei por último. Felizmente, peguei um examinador simpático, jovem, que fez questão de que eu ficasse tranquila, não foi nada arrogante e pelo menos se esforçou em não me deixar mais nervosa do que eu já estava. Eu estava certa de que erraria coisas ridículas, porque estava ansiosa. Fiz a baliza direitinho, até porque eu sou a miss baliza, acho que ninguém nunca fez tanta baliza quanto eu, em toda a Via Láctea. Mas, como Murphy sabe, sempre havia a possibilidade de dar uma zebra, e eu estava preparada. Depois, a garagem, também certinho, o examinador entrou no carro e eu disse, aliviada: “bem, sobrevivemos à baliza”.

Fiz 90% da prova em primeira e segunda, colocando a terceira apenas uma vez. Indo mais devagar, dava para controlar o nervosismo e fazer o que eu sabia fazer. A maior dificuldade no Intercap é a falta de sinalização horizontal nas ruas (para quem fugiu das aulas teóricas, sinalização horizontal é aquela feita com tinta na via, para separar as pistas, para marcar travessia de pedestres, etc.), temos de adivinhar onde acaba uma pista e começa a outra, quais ruas são mão única e quais são de mão dupla (sim, muitas daquelas ruazinhas apertadinhas têm dois sentidos!), e, como diria o Padre Quevedo, faixa de pedestres ali é algo que “non ecziste”.

O examinador conversou comigo bem tranqüilo, sobre um cachorro que latira, sobre o fato de morar em Canoas, claramente para que eu relaxasse, e funcionou. Andamos bastante ali por dentro (ou não, porque tudo sempre parece interminável quando estamos nervosos), e eu realmente achei que havia reprovado por algum motivo desconhecido e que ele, para não me deixar nervosa, evitou comentar antes do término do exame. Tomei o cuidado de repetir em voz alta o lado para o qual ele me mandara virar, e dar o sinal assim que ele avisava. Felizmente dar sinal e parar em placa de Pare e em final de rua já é automático para mim. Não passei na frente de ninguém, não há tempo máximo para o percurso, não há necessidade de apressar nada.

Quando avistei a praça e ele me mandou estacionar, gelei. Parei o carro e ele disse, sorrindo: “como tu disseste, sobrevivemos”. “Espero que sim” – respondi. Descemos do carro e ele me perguntou se achei que tinha errado, fui sincera e disse que eu poderia ter feito melhor. Ele me parabenizou por ter passado no teste e ainda completou, para o Claudio “Ela dirige tri bem”. Para quem não está familiarizado, dizer que alguém faz algo “tri bem” aqui em Porto Alegre é um grande elogio. Fiquei feliz, agradeci ao Claudio, que disse que o mérito era todo meu. Não é, eu sei. De ter passado, pode ser, mas sem ele eu jamais teria chegado até aqui. Ele acreditou em mim mais até do que eu, e minha vitória não deixa de ser dele, também. Depois, não comemorei demais em solidariedade aos colegas que reprovaram. Eu sei o quanto é frustrante não conseguir passar no exame, e uma criatura saltitante ao lado não deve ajudar muito.

Chegando em casa, contei, com muito suspense, ao Davison, e ele ficou eufórico com a notícia, ele me apoiou muito, e eu também não teria conseguido sem ele. A melhor coisa do dia foi poder dar de presente de aniversário de casamento ao meu marido a notícia da minha aprovação, pela qual ele tanto torceu. Depois, contei para a minha mãe, que também esperava a novidade. Escolhi dividir a alegria com as três pessoas que mais me apoiaram, antes de vir aqui, dividir com vocês, que tanta força me deram, por e-mail, pelos comentários aqui na coluna, ou por meu blog pessoal. Foram três tentativas, e até as frustrantes reprovações serviram para que eu aprendesse um bocado. Vale a pena enfrentar os medos, valeu a pena ter feito aulas antes dos exames, valeu a pena até o super pesadelo que tive. Ainda que pareça que nada vai dar certo, alguma hora as coisas começam a entrar nos eixos, e descobrimos que tudo muito é mais simples do que parece quando paramos de nos boicotar.

Aprendendo a dirigir VI – O examinador vive

Como os arquivos da minha extinta coluna na Revista Paradoxo desapareceram após remodelagem do site, aproveito o período de férias do Lampertop para agendar a publicação desta saga aqui…espero que ajude outras pessoas que estejam passando por situações parecidas…
Aprendendo a dirigir VI

O examinador vive

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[09/06/2007]

Reprovar pela segunda vez no exame de direção é uma prova a mais, após o teste de direção, testa-se a auto-estima, o autocontrole, a paciência. Pensemos pelo lado positivo, pelo menos eu não morri na baliza. A baliza foi até bastante agradável, por sinal, tudo direitinho, no tempo, com luz do sol e clima fresco. Logo antes do exame, que começou ligeiramente atrasado, um examinador fez a mesma palestra do da semana passada, porém, ao contrário do outro, não pareceu simpático ou amigo, mas impaciente. Perguntou, por obrigação, se alguém tinha alguma dúvida. Infelizmente, algumas pessoas tinham. Na hora de responder, visivelmente contrariado, ele incluía um irritado “é fácil, é super fácil” entre as frases. Pelo menos descobri que a tal fundação que aplica dos exames do Detran, substituindo a Fundatec é a Fundae.

Enfim, como dizem os gaúchos, eu “rodei”. Claro que a reação natural é buscar culpados e eu poderia apontar dedos para o examinador, para o fato de ele ter ensaiado encrencar com o nome novamente, no início, para meu nervosismo desde a hora em que ele reclamou do sobrenome abreviado, crescente durante o trajeto, pois conforme eu errava, ele se impacientava.

Porém, minha tendência ao perfeccionismo suicida faz com que eu tente apontar todos os dedos para mim, porque não consegui manter a calma e tive uma seqüência de emburrecimento, algo bem semelhante ao que acontecia durante minhas aulas na outra auto-escola e que relatei na crônica Aprendendo a dirigir, de novembro de 2005.

Tive raiva de mim, vontade de desistir para me punir, como a mãe que tira a televisão do filho desobediente. Não errei por não saber, errei por nervosismo e isso é imperdoável para alguém que preza tanto o domínio próprio. No entanto, após raciocinar, me dei conta de que a culpa não é apenas de um indivíduo, mas de uma série de fatores, todos já citados acima, com seus graus de importância. A conseqüência de uma ação depende da própria ação e de nossa reação a ela. São dois fatores causais.

Enxerguei diante de mim duas opções: ou me desespero e bato a cabeça em um tronco de árvore ou me conformo com o resultado, imaginando que tudo tem uma razão de ser. “Em tudo dai graças”, ensina o apóstolo Paulo em ITessalonicenses 5:18 É difícil dar graças em uma circunstância que nos traz tanta frustração, mas acredito que aí esteja a maior lição a se tirar de uma situação dessas. Saber que não temos o controle, que nem tudo está em nossas mãos e que devemos aproveitar as adversidades para nosso crescimento.

Fiz uma lista mental de tudo o que me atrapalhou durante o percurso, para trabalhar nisso até o próximo exame, no dia 21. Tenho de aprender a não ficar tão esquentada caso alguém encrenque com uma coisa burra como “não é permitido abreviar o sobrenome”. É óbvio, racionalmente, que essa proibição se aplica apenas aos nomes que, por extenso, cabem no campo destinado a esse fim no sistema do Detran, logo, que apenas os portadores desses nomes sejam incomodados. Quem tem dois nomes e quatro sobrenomes longos não tem outra alternativa, portanto, deve ser deixado em paz para evitar stress e nervosismo desnecessários.

Porém, conforme o examinador Adriano deixou bem claro na semana passada, funcionários são proibidos de pensar, então, como bons robozinhos, jamais entenderão um raciocínio de tamanha complexidade. Tenho de aprender a ter paciência e não me abalar com esse tipo de coisa, também devo exercitar a calma e me livrar do trauma do antigo instrutor estressado e, mesmo se pegar um examinador da mesma espécie, manter minha tranqüilidade e dirigir como sei dirigir, não como um polvo descoordenado. E, caso ele enfie o pé no freio quando achar que eu não conseguiria fazer a conversão na frente de um monza caindo aos pedaços que vem na via onde quero entrar, não preciso tomar um susto tão horrendo a ponto de achar que o coração saiu pelo ouvido esquerdo e se enfiou em uma boca-de-lobo para se esconder. Depois disso, com as pernas tremendo, fiz todos os erros que poderia fazer e também os que não poderia. Foi bom, pensemos pelo lado positivo, esgotei minha cota de erros e não os tenho mais para gastar no dia 21, só me resta acertar e passar no exame.

O Claudio ficou tão ou mais chateado do que eu, porque acreditava muito na minha capacidade, até porque ele me dá aula há bastante tempo e sabe que eu já aprendi, já perdi o medo de pedestres, de caminhões, de ônibus, ciclistas, cachorros e passarinhos na pista. Algumas pessoas vão para o segundo, o terceiro, o quarto exame sem marcar nenhuma aula extra, eu preferi marcar. Não que eu tenha dinheiro para isso, mas prefiro pagar muitas aulas e treinar bem do que apenas pagar taxas de teste, que não me trarão experiência maior do que reprovar.

Reprovei, mas pelo menos tenho a oportunidade de aprimorar o que já sei fazer e consertar os bugs que ainda existem. Marquei mais algumas aulas, umas duas à noite, para aprender a dirigir no escuro, outras durante o dia. O Claudio comentou que teremos de treinar ele colocar o pé no freio no meio de uma manobra. Não sei se foi brincadeira ou a sério, mas achei a idéia interessante, acho que vou seguir a sugestão do Davison, meu marido, e pedir ao Claudio algumas aulas terroristas, para que eu consiga alguma malandragem e jogo de cintura para lidar com qualquer tipo de examinador, sem dar uma de florzinha histérica, que isso não combina comigo.

Infelizmente (ou felizmente, depende do ponto de vista), caros leitores, vocês terão de agüentar ainda mais duas semanas dessa epopéia. Depois, assim espero, estarei habilitada não apenas para dirigir, mas também para escrever sobre outros assuntos.

PS: Esse texto foi escrito em 2007…amanhã o capítulo VII será publicado.

Aprendendo a dirigir V – O Império contra-ataca

Série de posts, escrita em 2007, que desapareceu com a hecatombe sofrida por minha antiga coluna na Revista Paradoxo e que ressuscita aqui, para apreciação da posteridade.

Aprendendo a dirigir V

O império contra-ataca

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[01/06/2007]

Meu teste prático estava marcado para o dia 30. Cheguei no horário, peguei a etiqueta e meu histórico do Detran, para provar que meu nome está abreviado no Sistema (se o seu não estiver, não se preocupe com isso. Se estiver, leia atentamente esta crônica). O exame estava marcado para as 15h no Intercap, onde foi meu exame anterior, existem mais uns dois lugares onde os testes podem ser aplicados, escolhidos uns dois dias antes por sorteio. São todos bem parecidos: uma pracinha mal cuidada, cercada por ruazinhas estreitas e igualmente mal cuidadas (geralmente de mão dupla), com paralelepípedos irritantes.

Havia outra auto-escola terminando seus exames, a nossa levou seus cinco carros e cerca de 48 alunos (segundo informações extra-oficiais) que, como eu, marcaram o exame com bastante antecedência. Para nossa surpresa, havia apenas três examinadores para avaliar os testes, um deles parecia legal e nos fez uma preleção sobre a importância de mantermos o emocional sob controle, porque “quem reprova o aluno é o próprio aluno, não o examinador” e porque “o exame é simples e só é cobrado o que vocês já sabem fazer”, deixou bem claro também que eles não estavam ali para prejudicar ninguém, que eram nossos amigos e só faltou pedir para que nós os levássemos ao nosso líder.

O exame só começou às 16h30, uma hora e meia após o combinado, provavelmente pela quantidade ínfima de examinadores e a lentidão de todo o processo. Sim, o exame é rápido, os examinadores, não. Percebi uma certa movimentação por volta das 17 horas, quando fui chamada, já preocupada com o horário, pois não me encantava a idéia de fazer baliza no escuro. O Claudio estava chateado, tentando argumentar com o examinador, o indivíduo encrencou com o meu cadastro e não queria me deixar fazer a prova.

Eu não acho, mas dizem que meu nome é imenso, talvez seja verdade, pois nunca cabe em nenhum campo de formulário, o destinado a “nome” do cadastro do Detran não tinha espaço suficiente para escrever, por extenso, Vanessa Stella Rodrigues Santana de Resende Lampert. A única saída, óbvia, foi abreviar. Desde a auto-escola anterior, em 2005, sou identificada no sistema do Detran como Vanessa Stella Rodrigues S. de R. Lampert. Assim fiz e passei no primeiro exame teórico, mas no segundo exame teórico, neste ano, tive de voltar à auto-escola para pedir um email do Detran autorizando a abreviatura. Um ridículo “documento”, apenas um email comum impresso.

Quem mandou o Detran não ter espaço suficiente no campo “nome”? Provavelmente fui eu, pois estou sendo punida por isso até hoje. Devo, em um de meus ataques de sonambulismo, ter encurtado a lacuna, de alguma forma. Achei que não me incomodaria mais com esse problema, na prova prática do dia 9, o examinador inclusive perguntou o que significava o S e o R que estavam abreviados e comparou com a identidade. Porém, não tive a mesma sorte com o de ontem; após um diálogo surreal, sua última tentativa de se esquivar da obrigação de oferecer um argumento lógico e inteligente que justificasse aquela proibição ridícula, foi apelar para o “a regra é essa e ponto”, com um tom arrogante e inflexível, que eu ouço como “somos todos robôs e é proibido raciocinar”.

– Por que não pode aceitar meu histórico, que tem todos os meus dados?

– Esse papel não vale, está escrito que não tem efeito legal, eu preciso de uma autorização do Detran.

– Mas o histórico é muito mais seguro, e tem mais valor do que um email impresso, se o histórico não tem efeito legal, o email não tem efeito nenhum.

– Não posso porque a regra é assim, a norma é essa, não posso fazer nada contra a norma.

– Sim, mas dá para raciocinar em cima da norma. – Eu disse, porque era óbvio que ele não estava fazendo nada errado, ou eu não estaria em meu segundo teste prático. Ele não ficou feliz com meu comentário:

– Eu sei raciocinar, mas sou funcionário!

– Ah, tá, então funcionário não pode pensar? É proibido?

Claro, para dizer isso eu já sabia da impossibilidade de ele dar o braço a torcer. O Claudio estava com dor de cabeça de tanto stress pela dificuldade de conseguir um prosseguimento de raciocínio da criatura. Lembrem-se que o Claudio é um instrutor calmo e paciente, mas se esforçar para fazer com que alguém entenda algo que não quer entender, esgota qualquer um.

Ligamos para a auto-escola, ao menos para avisar que o histórico não tinha feito nem cócegas na burrocracia. Para a minha surpresa, ao saber da confusão, um dos donos da auto-escola reimprimiu o tal email do Detran e foi até o Intercap. Pelo celular, brigou com os responsáveis pelo exame, reclamando da falta de respeito de marcarem teste para dezenas de alunos, disponibilizarem apenas três examinadores, começarem com uma hora e meia de atraso, e ainda criarem problemas.

Quando me liberaram para fazer a prova já estava escuro e eu preferi deixar para a próxima quarta, até porque, estranhamente, o tal examinador com quem discuti, estava reprovando à granel, provavelmente para se auto-afirmar depois daquela palhaçada toda, demonstrando seu pseudo-poder. Até agora não entendi por que raios essa autorização para abreviar os sobrenomes excedentes já não consta em meu cadastro no sistema. Ela deveria vir impressa na etiqueta em que o Detran autoriza meu exame. Já que é tão difícil assim aumentar o campo destinado ao nome, deveriam pelo menos grudar a informação em algum lugar para que eu não precisasse pagar ad infinitum por um erro que não foi meu.

Eu já estava xingando o Detran quando descobri que ele não é mais o responsável pelos exames teóricos e práticos, desde 1998 esse serviço é terceirizado. No site do Detran consta que os exames são aplicados pela Fatec, mas soube que há bem pouco tempo é outra fundação que tem feito esse trabalho, só não consegui descobrir ainda qual.

Depois, algumas dúvidas povoaram minha mente. As taxas que pagamos supostamente ao Detran, na verdade são recolhidas por essas fundações. Peço licença para perguntar, cá entre nós, o que elas fazem com o dinheiro? São R$40,24 pelo exame teórico e R$ 69,90 pelo exame prático, por aluno. Em Porto Alegre, segundo o site do Detran, existem 36 auto-escolas, todas abarrotadas de alunos, cada um deles paga essas taxas obrigatoriamente, calcule, por cima, o valor arrecadado.

O dinheiro não é reinvestido em nada que possamos ver ou nenhum serviço de qualidade que possamos identificar, nem uma área isolada para o exame prático eles são capazes de oferecer, um local fechado onde seja possível fazer baliza sem correr o risco de ser atropelado pelos carros alucinados da vizinhança, com iluminação e segurança suficientes, bancos para que os alunos possam aguardar sentados e protegidos da chuva, do sol forte ou do frio, uma lanchonete para que não morram de sede e fome e onde tenham um sanitário à disposição, ou seja, uma estrutura mínima para que sejam dadas condições decentes e justas de aplicação do exame prático.

Ficamos lá, das três da tarde às sete da noite, esperando em pé, congelando, com sede, fome e vontade de fazer xixi. Por volta das cinco e quarenta, o sol se pôs e ficamos no escuro, com a iluminação ridícula das ruas e inexistente da praça, em um local sabidamente perigoso…deveríamos, em vez de pagar taxa para a FATEC (ou quem quer que seja), receber um adicional de insalubridade. Às sete da noite, quando saí de lá, ainda havia uma porção de gente para fazer o teste e chegaram “reforços”: um examinador a mais. Pouco depois, os instrutores, preocupados com a segurança dos alunos, resolveram encerrar, eles mesmos, o exame.

Esperamos que na próxima quarta a tal fundação tenha, pelo menos, a dignidade de marcar o exame para as 13 horas, como costumava ser. E mande no mínimo um examinador para cada carro. É muito fácil trabalhar assim, arrecadam, não investem, não se esforçam, apresentam um trabalho amador, de qualquer jeito, e depois, o órgão que contratou o serviço é que recebe os xingamentos. Ao que eu saiba, fundações não visam lucro, auferem lucro, mas não visam…eu acreditaria nisso se cobrassem, pelo parco serviço que oferecem, o que ele realmente vale, uma taxa simbólica de – superfaturemos – cinco Reais. Ainda assim, convenhamos, sobraria dinheiro para investir.

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Aprendendo a dirigir IV – A saga continua

Série de posts, escrita em 2007, que desapareceu com a hecatombe sofrida por minha antiga coluna na Revista Paradoxo e que ressuscita aqui, para apreciação da posteridade.

Aprendendo a dirigir IV

A saga continua

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[17/05/2007]

Eu gostaria de escrever que reprovei por ter derrubado a baliza, por ter passado em uma placa de PARE, por ter esquecido de dar pisca sei lá quantas vezes, mas não tenho nenhuma história bonita de fracasso por ação, tentativa e erro. Minha história é mais imbecil e, conseqüentemente, menos nobre. Era uma tarde fria e chuvosa. Muito fria e relativamente chuvosa. Saiu uma população da auto-escola para o local do exame. Dúzias e dúzias de pessoas. Minha intenção era ficar o mais calma possível e não me preocupar com nada, para não me desesperar.

Havia uma gatinha filhote na rua, de uns oito meses, linda, provavelmente abandonada. Muito dócil e bobinha, confesso que fiquei mais preocupada com ela do que com a prova. Tentei não entrarem conversas sobre o exame, mas foi em vão. Sem que eu percebesse, lá estava eu tocando no assunto. Das três pessoas que conversaram comigo, apenas uma passou. Não tive absolutamente nada a ver com essa estatística, juro. A gatinha continuava a se arriscar no meio das pessoas e eu sofria por não ter uma bolsa de transporte vazia para seqüestra-la. Em um determinado momento, ela foi para sei lá onde e me chamaram para a prova.

Eu estava calma. Acho que meu problema foi estar calma demais. Olhei para o retrovisor e vi muito pouca coisa. Apagaram a luz do mundo. Apesar de não ser nem seis da tarde (acho que nem cinco), estava muito escuro e chuvoso. Meus dedos, congelados, tinham pouca comunicação com o cérebro. Mesmo assim fiz tudo direitinho, só não sabia disso porque não consegui ver o meio-fio. E ainda fiquei pensando, tentando me lembrar se alguém teria que me dizer alguma coisa, se eu podia puxar o freio de mão, enfim, enrolei. Fiz a baliza e quando fui fazer a garagem, não consegui alinhar. Teria conseguido entrar manobrando, mas…meu tempo acabou.

Isso mesmo, eu estourei o tempo na baliza. São cinco minutos. Reprovei por burrice e lentidão. Terei de pagar uma taxa para o detran, para fazer nova prova, que só pode ser marcada quinze dias depois, ou seja, minha nova prova está marcada para dia 30 (são quinze dias, mas como a prova é só as quartas…). Até lá, pretendo fazer mais algumas aulas, para ver se dessa vez passo, ou, se reprovar, “reprovo bonito”, como disse o Claudio, meu instrutor.

O problema é a droga do medo. Fiquei com medo de não ter entrado direito na baliza (porque a visibilidade estava ruim), fiquei com medo de subir na calçada, de derrubar a baliza, de estar esquecendo alguma coisa importante…o medo nos faz alcançar tudo aquilo que tememos. Ele acaba trabalhando contra si mesmo, é um auto-boicote. O sucesso e o fracasso não existem antes da tentativa, o medo faz brotar o fracasso, por geração espontânea. O medo nunca gera sucesso. Sim, eu sei que estou parecendo aqueles odiosos livros de auto-ajuda, mas me desculpem, não consigo explicar isso de uma forma mais inteligente. Volto às aulas com o objetivo de ser capaz de fazer essa baliza em menos de cinco minutos até no escuro, de olhos vendados. É uma questão de honra.

Aprendendo a dirigir III – persistir é o lema

Agendei a publicação desta série, que foi originalmente publicada em minha extinta coluna da Revista Paradoxo em 2007, quando descobri que a interface da revista foi totalmente modificada e os arquivos de minha coluna se perderam. Como muitas pessoas me disseram que essa série foi de extrema importância para elas, decidi trazer todos os capítulos para cá, e postar um por dia. Enjoy.
Aprendendo a dirigir III

Persistir é o lema

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[02/05/2007]

Não marquei aulas para o feriado e hoje alguns coleguinhas fizeram a tão temida prova prática do Detran. Espero que amanhã eu ainda me lembre de como se coloca um carro em movimento. Tenho esse problema de esquecer as coisas, é como se o espaço de armazenamento de coisas realmente úteis fosse ínfimo em meu cérebro. Grande mesmo é o compartimento para entulhamento de bobagens, lá até estão alguns fatos que me lembro em seqüência cronológica (com datas, inclusive), cuja precisão costuma irritar muita gente. Porém, só Deus sabe o porquê, a seqüência de simples movimentos mecânicos demora séculos para se grudar em meu córtex.

Aprendi, há bem pouco tempo, a lidar com essas limitações, meu lobo frontal não vai com a minha cara e terei de conviver com isso. Incrível como precisamos encarar nossas dificuldades, aceitá-las e tentar descobrir o que fazer com essas informações, para que algo enfim dê certo. Jamais imaginei que seria capaz de dar a partida no carro com tanta facilidade.

Sim, riam de mim, há pouquíssimas semanas eu era totalmente incapaz de fazer uma troca de marcha e olhar no retrovisor ao mesmo tempo. Com a inestimável ajuda do Claudio, o instrutor legal, parei de ter chiliques ao me aproximar de veículos monstruosos como ônibus e caminhões, também não fico totalmente paralisada quando um pedestre (ou um cachorro) se joga na minha frente.

Os pedestres de Porto Alegre são suicidas. Sério. Eles andam no meio da rua, têm sérias alergias à calçada e faixa de segurança. No local em que faço baliza, além dos pedestres suicidas, também existem cachorros psicóticos. São pobres caninos abandonados que perderam o juízo (se é que algum dia o tiveram), andam em bando e perseguem os carros. Sim, perseguem os carros. Eles correm atrás dos carros das auto-escolas, latindo e ameaçando morder os pneus. Sinceramente, eu nunca os vi correndo atrás de outros carros, eles sabem ler. São, neste ponto (e em vários outros, imagino), muito mais evoluídos do que alguns motoristas que temos a infelicidade de encontrar no trânsito.

Lá estou eu, pseudo-apavorada, tentando aprender a dirigir, segura por estar em um carro bem sinalizado sobre a ausência de habilitação. Ando mais devagar do que os carros normais, faço as curvas e as conversões bem mais lentamente do que o resto da humanidade, troco as marchas com menos habilidade do que quem dirige há duzentos anos e, eventualmente, posso apagar o carro no sinal. E as criaturas não têm a menor paciência, buzinam histericamente, xingam, fazem careta e batem as mãos no volante.

Eles não sabem ler, eu não sei dirigir, estamos quites. Se está com pressa, não pare atrás de um carro de auto-escola. Se parar, favor respeite, respire milhões de vezes e não fique assim muito perto, pode ser perigoso. Total incapacidade de se colocar no lugar dos outros. Será que eles nasceram sabendo dirigir? Ou acordaram um dia, aos cinco anos de idade, e tiveram uma revelação:

– Mamãe, mamãe, se eu pisar fundo na embreagem, engatar a primeira marcha, soltar até a metade, acelerando, eu coloco o carro em movimento!

Ou, quem sabe, sejam mutantes grudados aos carros. Eles e os carros sempre foram uma coisa só, mas uma coisa tão amalgamada que lhes parece absurdo que alguém, veja só, ainda esteja tentando coordenar seu mísero par de pernas e seus dois braços aos comandos do automóvel.

Sua capacidade motora se desenvolveu tanto que não sobrou espaço para o cérebro. Não percebem que buzinar para um carro de auto-escola, no qual se encontra uma pessoinha que ainda está aprendendo a dirigir, faz com que ela fique ainda mais nervosa e demore o dobro ou o triplo do tempo para sair do lugar. Eu ainda apago o carro quando um infeliz começa a buzinar enlouquecidamente atrás de mim no semáforo. São os únicos momentos em que ainda meto os pés pelas mãos (quase literalmente) e confundo tudo o que tinha de fazer.

No entanto, já consegui vencer tanta coisa e estou tão feliz por dirigir feito gente (ou quase), que nenhum motorista abilolado vai fazer com que eu desista. Se tudo der certo, na próxima quarta farei meu exame. Se der errado, continuo com as aulas, torturando os motoristas analfabetos apertadores compulsivos de buzinas. Sem sofrimento.


PS: Texto originalmente publicado em 2007. Aguarde continuação amanhã.

Aprendendo a dirigir II – o retorno à auto-escola

Série originalmente postada em minha extinta coluna Sala de Estar, da Revista Paradoxo.

Aprendendo a dirigir II

O retorno à auto-escola

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[25/04/2007]


Quem acompanha esta coluna há algum tempo deve se lembrar desta crônica, em que eu relatava minha experiência corrente e desastrosa nas aulas práticas de direção. Pois bem, retorno hoje, um ano e cinco meses depois, para dar continuidade à história. Como se percebe naquele relato, eu estava indo mal, mas com uma incrível vontade de aprender e superar o medo.

Infelizmente, o segundo instrutor não era tão paciente quanto eu imaginava, e logo mostrou que sua falta de simpatia escondia uma grande facilidade de se estressar. Eu errava, ele se estressava, eu ficava nervosa e errava de novo. No meio do trânsito, ele me dizia: “Você viu o que fez?” Sem tirar os óculos e sem olhar para mim, não me dizia o que raios eu havia feito de errado e eu continuava sem saber. Me sentia a criatura mais burra e inútil da face da Terra e o cara mal falava comigo.



Perto da vigésima aula, ele sugeriu que eu suspendesse tudo e procurasse a psicóloga da auto-escola. Aceitei e fui conversar com a mulher. Ela perguntou da minha vida, eu contei toda a saga Vanesseana, para, ao final, ela me perguntar se eu não achava que estava me dedicando demais aos outros e esquecendo de mim, não gostou da atenção que dispenso ao meu marido, nem da minha mania de falar de planos para o futuro como se o casamento fosse para sempre. Saí de lá tentando entender o que isso tinha a ver com o fato de eu não conseguir aprender a dirigir. Não voltei mais.



No mês seguinte, meu marido foi internado com peritonite e passamos trinta dias no hospital. Quase no final desse período, tivemos a visita de um amigo dele, que me convenceu de que o problema era o instrutor, não eu, e passou o telefone de uma auto-escola que tinha um instrutor especializado em pessoas com medo de dirigir. Acabei não telefonando.

O tempo passou, e no início do ano minha cunhada me contou que estava tendo aulas de direção, apesar de já ter carteira de motorista, para ter mais segurança e perder o medo de dirigir. Conversamos bastante a respeito e no final das contas soube que ela já conseguia levar meu sobrinho à escola, guardar o carro na garagem e não matar ninguém no caminho. Me animei e resolvi voltar às aulas práticas, tentei ligar para o tal instrutor, mas ele agora só trabalha com quem já tenha carteira.

Procurei na lista telefônica e escolhi a auto-escola que dizia “especializada em pessoas nervosas” (CFC Dornelles). Para a minha surpresa, não precisei pagar tudo de novo, pude aproveitar minhas aulas teóricas, o que já foi grande coisa. Tive que repetir o exame médico e o psicotécnico, a prova teórica e prática. A prova teórica está muito mais fácil do que antes, e acertei 28 das 30 questões. Preferi, por razões óbvias, marcar algumas aulas práticas antes, perguntei qual era o instrutor mais acostumado com alunas histéricas e me indicaram o Claudio, fui orientada a marcar apenas uma aula, se gostasse dele, marcaria mais, se não, tentaria outro.

Aí vai a dica: não façam isso. Uma aula não dá tempo para nada, melhor marcar duas de 50 minutos, seguidas (a chamada “aula dupla”), menos estressante e mais fácil de notar se o cara é legal ou não. Apesar da correria, gostei muito do instrutor, é um cara muito inteligente, tranqüilo, simples e brincalhão, me deixou super à vontade, nem perto dos estressados da outra auto-escola. Voltei à recepção e marquei mais vinte aulas, ou melhor, dez aulas duplas, antes que alguém passasse à minha frente.

Como o cara é super tranqüilo, não se estressa, não me deixa histérica, conversa, brinca e gosta do que faz, estou conseguindo aprender e me livrar do pavor. Descobri que não tinha nem tenho medo de dirigir, na verdade, desenvolvi uma insegurança absurda por conta de um profissional mal preparado.

Lendo os comentários deixados pelos leitores, percebi que o maior problema é justamente o despreparo dos instrutores, que acham que tudo ali tem de ser tão óbvio para nós quanto é para eles, e não têm paciência para lidar com quem nunca trocou uma marcha na vida. O Claudio é um cara que gosta do que faz, tem um dom para ensinar (é um ótimo treinador), sabe se colocar no lugar do outro, respeitar a falta de experiência do aluno. Qual é a dificuldade disso? Por que é tão difícil encontrar um instrutor assim? Se o cara não tem paciência para lidar com quem está aprendendo, por que não trabalha em outra coisa?

Marquei mais oito aulas e farei a prova prática no dia 9 de maio. Coloquei na cabeça que não pensarei na prova, se não estiver segura, vou fazendo aulas até estar bem para fazer o teste. Ah, e semana passada tive um estalo: eu também sou um carro! No meio do trânsito, a gente tem a impressão de ser uma pessoa no meio de milhões de carros. Aquele trambolhão é só um troço que atrapalha. Só agora caiu na ficha que eu sou tão carro para eles quanto eles são para mim, então fiquei mais segura. Teremos mais uma quarta-feira e a prova do Detran é na outra quarta, portanto, o assunto continua. Torçam por mim.

PS: Texto originalmente postado em 2007 …aguarde continuação amanhã.

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Aprendendo a dirigir

A interface da Revista Paradoxo foi toda remodelada, e os arquivos de minha extinta coluna (ainda a ressuscitarei…se o Mark não tiver me colocado em seu caderninho preto ad infinitum…risos…) Sala de Estar foram para o brejo… mas alguns posts são de utilidade pública, como a série em que contei minha saga para aprender a dirigir…e nesse período de férias do Lampertop, acho que vale a pena agendá-los para serem publicados, assim quem não leu, pode acompanhar…e quem está passando pelo mesmo drama, quem sabe se anime :-)   Em tempo: já tenho a CNH definitiva há uns três anos e dizem as boas línguas que sou excelente motorista :-)

Aprendendo a dirigir

Da necessidade de lidar com coisas novas

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre

O máximo que eu sabia era girar a chave e ligar o carro. As aulas teóricas no curso de formação de condutores, vulgo auto-escola, foram uma festa. Como gosto de estudar, prestei atenção em cada uma delas e fiz um montão de exercícios. Passei no exame teórico mesmo com uma gripe horrenda e uma dor de cabeça pavorosa. Não via a hora de pegar um carro e aprender a dirigir. Mas nada é assim tão fácil.

Peguei um instrutor estressado, o que já foi, por si só, ruim. Estava nervosa e apavorada, confesso. Veja bem, eu tenho noção das coisas. Estava na direção de uma máquina pesadíssima, que pode colidir com qualquer coisa e matar, ferir, arrancar pedaço de quem atravessar seu caminho (ou estiver dentro dela).  Com esse primeiro instrutor, mesmo me esforçando para prestar atenção, fazia o contrário do que ele acabara de dizer.  Passamos três vezes pelo mesmo cruzamento e eu não percebi, fizemos conversão à esquerda e à direita quinze mil vezes e eu simplesmente me esquecia a ordem dos passos.

Como é mesmo? Liga o pisca, se tiver que parar, pisa devagar no freio, depois na embreagem até o fim. Coloca em primeira, solta a embreagem pouquinho, pisa no acelerador, solta a embreagem até o meio e vai. Só não pode esquecer de girar o volante e desligar o pisca. Solta o resto da embreagem e vai até os 20 Km/h para então pisar na embreagem até o fim e colocar na segunda marcha. Aí solta a embreagem e não se esqueça de colocar o pé esquerdo apoiado ao lado, jamais em cima da embreagem, ou perde ponto. Quando não precisar parar, dá para fazer uma conversão sem usar freio nem embreagem, em segunda marcha. Ele não passou comigo a terceira, a quarta, etc, etc…deve ter me achado burrinha demais para passar todas essas marchas de uma só vez. Muito provavelmente o Tico e o Teco colidiriam frontalmente. Sem contar que entrava à esquerda quando ele dizia direita e dava o pisca para a direita quando queria ir para a esquerda.

Pois bem, coloquei a culpa no carro e troquei o Celta pelo Palio. Para a minha surpresa, cada instrutor vinha grudado ao carro e agora tenho um novo instrutor. Ele não é exatamente simpático, acho que é proibido aos instrutores ter senso de humor, mas ao menos não é estressado e parece ser paciente. E, o melhor de tudo: usa óculos escuros o tempo inteiro, o que me impede de ver se ele está fazendo caretas oculares (sim, porque é possível notar se o cara está de saco cheio ou te achando uma imbecil apenas pelo olhar) e me dá mais segurança.

Justamente quando decorei o esqueminha dos pedais (embora minha coordenação motora não colabore muito) começamos aula de baliza. Não sei por que raios sempre achei que baliza era ficar desviando de cones. Não é. Baliza é entrar e sair de uma garagem feita de canos verticais, basicamente. E você não pode um monte de coisa. Várias coisas reprovam e a possibilidade de passar me parece praticamente nula, mesmo assim resolvi ir em frente e descobrir se eu realmente conseguia fazer aquele troço estranho.

Primeiro, você liga o carro e dá sinal para a esquerda. Aí gira todo o volante para a esquerda e logo já dá sinal para a direita. Ok, parece fácil. O problema é que para girar o volante totalmente para a esquerda é necessário aplicar uma força descomunal. Me senti como uma escrava magrela, fracote e faminta, remando em plena tempestade, na galé. Carregando praticamente sozinha um navio de trocentas toneladas. Mais ou menos isso. Depois, quando você acha que acabou, tem que girar todo o volante para a direita. Rema, rema, rema, rema…

Olha no retrovisor, cuidado para não bater na baliza. Olha para trás. Quando a segunda baliza estiver perto da terceira risca do vidro, pára. Sinceramente, não me lembro do resto. Tenho problemas gravíssimos com esquemas não-escritos. Para eu decorar e entender, tem que ser tudo por escrito. Meu maior problema neste curso é me sentir um cérebro imenso e confuso, que não sabia que tinha braços e pernas. Todas as minhas dificuldades se concentram na tal da coordenação motora. Foi por isso que desisti de aprender a tocar piano (geralmente a mão esquerda acompanhava a direita, como se fossem coladas). Aprendi a escrever com as duas mãos e usar os dois lados do cérebro, mas não ao mesmo tempo.

Pessoas incrivelmente idiotas aprendem a dirigir, não é necessário inteligência. Pessoas extremamente inteligentes também aprendem a dirigir, não é necessário ignorância. Pessoas com deficiências físicas aprendem a dirigir, não é necessário ter dois braços e duas pernas funcionando perfeitamente. O problema é que sempre que somos confrontados com situações jamais vividas anteriormente, o interruptor “medo” é acionado instantaneamente. É ele quem nos paralisa, para evitar o desconhecido, ele descordena absolutamente tudo o que for necessário para que lidemos com a tal situação nova. E lutar contra ele, no escuro, para apertar novamente o botão que nos coloca no controle de nossas emoções e movimentos, é a parte mais complicada.

A grande vantagem dos desafios, seja aprender a cozinhar, dirigir, mexer no computador, falar outras línguas, até arranjar um novo emprego, iniciar um novo relacionamento, morar em uma nova cidade, morar sozinho, casar, ter um filho, trocar a primeira lâmpada ou mesmo a primeira fralda, é que quando, finalmente, você consegue acertar (mesmo que depois de uma série de erros), descobre que é capaz e renova a auto-estima. O chato é todo aquele processo cansativo necessário para chegar ao ápice, que é descobrir que aquele monstruoso leão de sete cabeças, na verdade, era um inocente e inofensivo gatinho. De uma cabeça só.

[09/11/2005]

(UPDATE: Quer ver a continuação disso?  Clique aqui para acessar o post com os links da saga completa)


Mauricéia –  Salvador  –  10/11/2005 ~ 10:49
Eu na época que fiz auto-escola sabia fazer baliza, depois fiquei mto tempo sem dirigir e como tudo é treino nessa vida, esqueci como se faz as tais, agora tenho uma tática, só estaciono em esquina e em final ou início de garagem, pra que sofrer, não é mesmo? até pq meu carro não tem direção hidráulica, ai tem q suar. Beijos.

Hipácia –  Johannesburg  –  10/11/2005 ~ 14:59
Sempre fui de achar jogos eletrônicos uma grande bobagem, e de me gabar de não perder tempo com isso – enquanto minhas irmãs são capazes de passar horas seguidas em frente ao computador finalizando jogos com milhares de fases, que depois viram filmes de ação no cinema. No entanto, uma das primeiras perguntas que minha instrutora me fez, na primeira aula de direção, foi exatamente se eu tinha o hábito jogar. Não demorou muito para comprovar a razão que ela apresentou: ela disse que as pessoas que jogavam video-game tinham mais facilidade em memorizar e executar as seqüencias de ações necessárias para dirigir. Não fui exatamente mal nas aulas, e consegui obter minha carta na segunda tentativa – da primeira vez realizei o percurso inteiro sem trocar de marcha (pulei essa etapa, perdi uma vida), mas até hoje sinto que meu raciocínio é um pouco mais lento do que o ideal, em trânsito. :^(

mariana –  araçatuba sp  –  01/12/2005 ~ 17:32
oi tudo bem ,estou vivendo este dilema estou apredendo a dirigir e me acho um asno tudo q vc passou eu também estou passando e lendo a matéria me senti melhor por saber q ñ sou a única q tem dificuldades para aprender a dirigir

Emilia –  Umuarama/PR  –  06/12/2005 ~ 11:59
Finalmente encontro pessoas como eu, que sofrem pra aprender a dirigir. Sinto-me mais humana agora, achava que eu tinha algum problema…

Vanusa –  Betim  –  25/12/2005 ~ 19:14
Passei na legislação e estou com muitos estimulos para começar a dirigir! Li e gostei muito do seu texto, bem articulado, humorado e sincero. Aprendi muito. ¡Besitos!

elis –  Vila Velha(ES)  –  06/02/2006 ~ 11:10
Parabéns vc expressou exatamente o que estou sentindo,fico feliz em saber que não sou a única e afinal pasou na prova de trânsito? Abraço de Elis.

cristina –  cuiaba  –  13/02/2006 ~ 15:31
muuuiiiito legal! Comecei o processo de apreender a dirigir, estou em panico sinto-me incapaz a cada aula que faço, conheco molequinhos de 14 anos que só de olharem já sabem dirigir isso me deixa frustrada e o pior tenho carro a 02 meses e fica mais parado que andando. Imagina voce sair de casa pegar onibus entupido, pagar passagem, acordar cedo, enfrentar o sol de Cuiabá,e o carro parado!!!, não sei se é pior pagar a prestação do financiamento sem usufruir do bem ou ouvir comentarios do tipo voce ainda não conseguiu?!!! Olha só Deus para me ajudar mas eu creio que vou ainda sair para onde eu quiser com meu carro e ainda vou ajudar quem não apreendeu. Eu sei que essa fase vai passar!

Tristinha –  Brasilia  –  08/03/2006 ~ 19:39
Hoje fiz meu exame de direção e reprovei.Chorei muito e quase tudo que você escreveu é exatamente o que sinto ou senti.Não sei se um dia serei apta mas vou tentar renovar minhas forças e fazer de novo. Me senti a pior pessoa desse mundo depois do dia de hoje. Obrigado pelo seu texto.

Ana paula –  belo horizonte  –  11/03/2006 ~ 19:11
Estou numa situação muito parecida com a que você descreveu ,não estou conseguindo entender baliza e nem dar ré estou apavorada,nunca dirigi já fiz 20 aulas

JU –  BH  –  13/03/2006 ~ 13:07
Olá… hoje foi minha primeira aula de direção. Tenho 24 anos e nunca havia sentado no banco do motorista. O cara já me colocou pra subir e descer morro, passar perto de escola… fiquei apavorada e cutuquei a internet pra ver se encontrava algum texto que me confortaria. Encontrei o seu. Depois de ler os dois últimos parágrafos, até fiquei mais animada. Acho que amanha estarei mais confiante. Valeu!!

Rô Nunes –  Curitiba  –  27/04/2006 ~ 17:22
Sabe qdo vc se identifica por completo com aquilo q está lendo? Foi assim, qdo li o seu, Vanessa. Até o detalhe do piano, igualzinho! E os esquemas não escritos, então? São as mesmas dificuldades que encontro. Vou para a 7ªaula e me sinto como um bebê sem a mãe. Credo! Mas,eu vou superar, principalmente depois que eu li seu texto, eu tenho certeza de que vou! Um abraço e obrigada por ajudar a tanta gente, sem saber.

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