Da série “Onde foi parar sua dignidade?”

Gatos são conhecidos por exibirem um alto grau de independência e por deixarem bem claro aos seus donos que, por mais que os amem, certas coisas estão completamente fora de cogitação. Uma dela é “agir como um cachorro”.

Os cachorros são criaturas maravilhosas e seu forte instinto de matilha os fazem ver seu dono como seu amo, mestre e senhor, digno de toda a obediência. A felicidade para um cachorro é ter o seu lugar bem definido na matilha e todo dono deve criar situações onde seu bichinho possa exercitar essa necessidade, como lhe ensinar truques e lhe dar recompensas por bom comportamento. Isso faz bem para a cabecinha deles e privá-los de uma hierarquia bem definida dentro de casa é quase um tipo de tortura.

Todo gato, em contrapartida, ao nascer, recebe um manual contendo instruções específicas de como agir para fazer parte da SSFD, ou “Sociedade Secreta dos Felinos Domésticos”. É uma sociedade mundial com um rígido código de honra ao qual todo gato deve jurar respeitar e zelar por toda sua existência.

Os donos de gatos, por sua vez, conscientemente ou não, devem se submeter alegremente a todas as regras e estatutos da SSFD, caso desejem usufruir da felicidade e do senso de realização que tais nobres criaturas trazem às suas vidas.

Exemplos dessas regras  de conduta podem ser vistas no ótimo Hallmarks of Felinity, de Brooke McEldowney:

Um gato sempre deverá andar (com graça e leveza) por locais onde sua presença será mais notada.

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Um gato jamais deverá permitir que seu humano durma além do horário

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Um gato deverá sempre ocupar os mais importantes lugares da residência.

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E por aí vai…

Mas como foi dito, a regra de ouro, aquela que está acima de todas as demais e que todo gato JAMAIS deverá esquecer, é que ele não poderá agir como um cachorro. Sob hipótese alguma.

Certamente o Grafitte (não sei se é esse o nome dele, mas soou legal), o gatinho do vídeo abaixo, perderá sua carteirinha de sócio da SSFD.  Pobre Graffite, onde foi parar sua dignidade?…

Ignorância mata mais do que toxoplasmose

Inspirada pelo post anterior, que comentava das keywords de grávidas preocupadas com piolho de pombo, pensei em fazer um post sobre Toxoplasmose e gatos. Não sei como ainda não entrou ninguém procurando por isso aqui, mas caso entre, vamos esclarecer algumas coisinhas para te tirar da ignorância em que a maioria da população está submersa, copiando o email que enviei a um médico muito imbecil que deu uma entrevista mais imbecil ainda ao site do Drauzio Varella, em 2006. Na época reunimos algumas gateiras na comunidade Cuidando de Gatos, no Orkut, e a troca de informações foi absolutamente positiva. Segue o email:


“Jamais imaginei ler uma entrevista de tamanha ignorância em um site tão conceituado. O Dr. João Silva Mendonça, infelizmente, mostra-se totalmente despreparado para informar as reais formas de contágio da toxoplasmose, prestando um belo desserviço à população e à causa animal, a despeito de presidir a sociedade de infectologia (acaba de prejudicar a credibilidade da instituição, em minha opinião). Perdeu uma bela oportunidade e informar os leitores. Ou de ficar calado.

Primeiro, a forma mais comum de contágio, e o infectologista deveria saber, é por ingestão de verduras cruas mal lavadas e carne contaminada mal passada. Por quê? Porque é necessária a permanência das fezes do animal no ambiente por cerca de 48 horas para que os ovos esporulem e se tornem infectantes.

O que o doutor deveria ter esclarecido é que gatos de apartamento, ou de casa sem acesso à rua e alimentados exclusivamente com ração, sem contato com carne crua, não correm risco de serem infectados com o toxoplasma. Deveria ter usado seu espaço para afirmar a importância de se manter os gatos dentro de casa, não dar carne crua e castrá-los, para que fiquem tranquilos em ambiente indoor.

Também esqueceu de dizer que a população deve lavar bem os vegetais antes do consumo e não deve comer carne crua ou mal passada. O tal médico deveria se atualizar, pois está somente repetindo velhos e ultrapassados conceitos que não só não ajudam a população a evitar a toxoplasmose, como também colaboram com o preconceito contra os gatos, com o abandono e com a criação errada, que prevê gatos não castrados, com acesso à rua e comendo carne contaminada, ou seja, incentiva a contaminação felina e possível contaminação por ingestão de fezes antigas em areias de parquinhos infantis, hortas caseiras…

Será apenas ignorância? Ou será que não é de interesse de alguns profissionais que a população REALMENTE saiba evitar doenças como a toxoplasmose? Talvez eles precisem da doença para manter o fluxo de pacientes. Será que alguém que deveria estar informando e ajudando a salvar vidas, se interessaria em prejudicar vidas para manter seu negócio? Sinceramente, prefiro acreditar na hipótese da ignorância e da falta de estudo e atualização. Lamentável não apenas a postura deste médico, mas também a do site, que divulga esse tipo de informação equivocada, contribuindo para a desinformação de população. Realmente lamentável.

Deixo uma palavra de quem entende de gatos e de zoonoses:

“Os gatos tem o hábito de limpar-se, não deixando restos de fezes pela pelagem, e enterram seus excrementos. A possibilidade de contaminação dos seus proprietários é mínima ou inexistente. Acariciar um gato ou tê-lo como animal de companhia não representa perigo. Mordidas ou aranhões do gato também não transmitem toxoplasmose.”

http://www.sampaonline.com.br/saude/toxoplasmose.htm

A propósito, espero que esse médico não coma alimentos como kibe cru e carpaccio porque desta forma correrá muito mais riscos de se contaminar com a toxoplasmose, mesmo que não chegue nem perto de gatos e de casas com gatos. Muito mais risco do que se tivesse cinquenta gatos em casa, castrados, sem acesso à rua, comendo apenas ração e dormindo em sua cama. Ignorância não escolhe escolaridade, formação acadêmica, credo, etnia ou idade. É extremamente democrática.”


Algum tempo depois, recebi o seguinte email em resposta:


“Cara Vanessa,

Lamentamos seu descontentamento e agressividade. Já recebemos e-mails de
internautas descontentes com algumas informações sobre esta entrevista, mas
o Dr. João mandou cópias dos estudos feitos pelas revistas Science, Lancett,
entre outras, consideradas da maior credibilidade mundialmente, confirmando
as informações prestadas. Sugerimos que as acesse.

Eduardo

Site Drauzio Varella


Detalhe: Dr João mandou cópias dos estudos? E por que esse tal de Eduardo não repassou essas cópias para mim? Estudos organizados por quem? Em qual século? Em quais números dessas revistas? Quais revistas são as “entre outras”? E chamar de ignorante não foi agressividade, foi constatação. Eu dei duas opções. A menos pior era a ignorância.


Minha resposta ao Eduardo, porém, encerrou o assunto:


“Caro, Eduardo,

E onde eu acessaria esses artigos? Esses estudos foram orientados por quem? Publicados em quais números das revistas? Quais são as revistas “entre outras”? Esses estudos foram feitos em que século? Era o tipo de artigo escrito em 1815, que deve ser a data da última atualização do Dr. João.

O bioquímico holandês Wilhelm Gottschalk afirmou, no V Fórum Social Mundial que o HIV não existe. E ele afirma ter uma porção de estudos científicos que comprovariam essa teoria. E não está sozinho. Vocês o entrevistariam, com base nisso e em artigos que ele certamente lhes mostraria? Ou acreditariam que isso seria um desserviço à população e que seriam, assim, colaboradores da desinformação, que, nesse caso, mata?

Na entrevista, o dr. João diz que existem “duas formas de contágio”, mas passa a entrevista toda falando de gato e omite totalmente a segunda forma? Ué, se existem duas, por que ele se ateve apenas a uma suposta forma (equivocada, aliás)? Toxoplasmose não se pega por exposição ao ambiente, não fica no pêlo do gato (o que torna absurda a afirmação do tal médico de que o contato da mão de uma pessoa com o sofá onde o gato DEITOU seria o suficiente para o contágio, caso a pessoa colocasse a mão na boca).

Gatos sem acesso à rua e alimentados exclusivamente com ração não têm a menor possibilidade de se infectar com o toxoplasma, ao contrário do que afirma o médico João na entrevista. Duvido, sinceramente, que haja algum estudo sério e atualizado que confirme essas informações depois de tudo o que se sabe a respeito do toxoplasma gondi.

No site do Instituto de Pesquisa Evandro Chagas, da Fundação Oswaldo Cruz, existe a informação correta, que confirma o que estou dizendo, sugiro que entrem em contato com os pesquisadores sérios do Evandro Chagas para maiores esclarecimentos sobre o tema:

http://www.ipec.fiocruz.br/pepes/toxo/toxo.html

A Fiocruz tem um laboratório de toxoplasmose, deve saber o que está dizendo.

No link “medidas de prevenção”, as informações que deveriam ter sido dadas pelo dr. João, caso ele fosse realmente bem informado e se preocupasse em orientar corretamente a população. Sugiro que apaguem aquela entrevista e consigam uma fonte melhor informada. Copiando do site do Ipec:

Toxoplasmose
MEDIDAS DE PREVENÇÃO

1) Lave bem as mãos antes de mexer com os alimentos;

(entre um tópico e outro tem fotos, vocês podem ver no site. No email elas ficaram inseridas)

2) Não coma carne crua ou mal cozida;

3) Ao mexer com a terra ou caixa de areia lave bem as mãos ou use luvas;

4) Só beba água filtrada ou fervida;

5) Frutas, verduras e legumes crus devem ser bem lavados.

OBS.: A Toxoplasmose tem cura. O fato de apresentar exame positivo para toxoplasmose não significa que você esta com a doença. Na maioria das vezes, indica a presença de anticorpos.

OBS.: Os gatos domésticos se infectam caçando pequenos animais infectados, como ratos e aves. Desta maneira, os gatos que não vão as ruas para caçar, e que comem apenas ração industrializada NÃO oferecem perigo. Mas, alguns cuidados como limpar sempre a caixa de areia, lavar bem as mãos antes de manusear o alimento e não dar carne crua ou mal cozida para os gatos são medidas importantes. “

Sigam o belo exemplo de divulgação de informações corretas do site da Fiocruz. A população humana e felina só tem a ganhar com isso. E tanto o site de vocês quanto o dr. Drauzio Varella, também.

Sugiro que leiam também a carta da especialista Elizabeth de Souza Neves (Crm 52-34588/9) à jornalista Cora Rónai, colunista do jornal O Globo.

http://cora.blogspot.com/2003/09/e-para-que-no-restem-dvidas.html

Faço das palavras dela as minhas:

“Por favor, consultem os profissionais especializados e deixem os pobres gatos em paz.”

Isto é, se a intenção for realmente esclarecer a população.

Grata pela atenção, aguardo a retirada das informações equivocadas do site.

Vanessa Lampert.”


Não recebi resposta. Vocês acham que a entrevista saiu do ar? Está lá,  desde 2006, disseminando a ignorância sob o disfarce de ciência. O que me leva a crer que não, a intenção não era a de esclarecer a população.

Repito aqui um trecho do primeiro email…que fique como reflexão:

Será apenas ignorância? Ou será que não é de interesse de alguns profissionais que a população REALMENTE saiba evitar doenças como a toxoplasmose? Talvez eles precisem da doença para manter o fluxo de pacientes.  Será que alguém que deveria estar informando e ajudando a salvar vidas, se interessaria em prejudicar vidas para manter seu negócio?

Sinceramente, prefiro acreditar na hipótese da ignorância e da falta de estudo e atualização. Lamentável não apenas a postura deste médico, mas também a do site, que divulga esse tipo de informação equivocada, contribuindo para a desinformação de população. Realmente lamentável.”

PS: Infelizmente o site do Laboratório de Toxoplasmose da Fiocruz não existe mais, ou pelo menos não está mais no lugar em que estava em 2006, quando este email foi escrito.