A lição do Homem-Abajur

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Uri, o Homem-Abajur

Assistindo à novela “Os dez mandamentos”, fiquei realmente revoltada com a situação de Uri. Como único hebreu do palácio, só ele conseguia manter uma tocha acesa durante a praga das trevas espessas. Ele passou o capítulo inteiro de Homem-Abajur, achando que, assim, conseguiria provar sua fidelidade ao rei. Que papelão! Se humilhando e sendo humilhado por não querer abrir mão do comodismo.

Uri não aceitou ir para a vila com sua família, preferindo ficar no palácio, vivendo a ilusão em que acreditou a vida inteira. É óbvio, para quem acompanha a novela, que as pragas estão aumentando o abismo entre os egípcios e os hebreus e eu não duvido que ele acabe expulso do palácio ao fim da última praga simplesmente por ser hebreu.

Muitos se iludem com a falsa sensação de bem-estar e, como Uri, se submetem a situações pelas quais não precisariam passar. Por orgulho, covardia ou falta de visão. O caminho para uma vida melhor é estreito, muito estreito. Não há liberdade sem uma boa dose de sacrifício. A zona de conforto pode parecer quentinha, mas se derrete.

Quando a pessoa não entende a lógica do sacrifício e acha que pode encontrar uma forma de ficar segura e escapar do deserto pela força do seu braço, não percebe que está se enfiando em uma grande enrascada. Porque o melhor da travessia é o deserto. É nele que a gente cresce. É ele que prova quem é quem. É ele que fortalece mesmo os mais fracos. É passando por ele que aprendemos a confiar.

Não estou aqui advogando em favor da dificuldade. Muito menos dizendo que é legal ser pobre. Muito pelo contrário! O que Uri não enxerga é que ele não é livre. Ele não é nobre. Para os egípcios, ele sempre será um hebreu arrumadinho que eles toleram porque, enfim, é joalheiro do rei. Uri pensa que seu talento seria desperdiçado no deserto. Isso se chama falta de visão. Ele quer, com sua visão de formiga humana, definir o que é ou não possível e os limites de Deus. Porém, dessa maneira, ele só limita a si mesmo.

O quanto poderia ser útil se fosse com seu povo! Lembre-se dos spoilers da Bíblia: Bezalel e Aoliabe foram escolhidos por Deus (chamados pelo nome) para fazer a Arca da Aliança e os utensílios do Tabernáculo e contaram com a ajuda de outros hebreus. Uma grande honra para qualquer pessoa estar no meio desse grupo para fazer uma obra tão maravilhosa (e que acabou sendo registrada no maior best-seller de todos os tempos).

Ele não quer arranjar encrenca com o rei e realmente acha que, se ficar na dele, subserviente, tudo voltará a ser como antes. Mas entenda uma coisa: depois que começa a batalha (e já começou há milênios, se é que você não percebeu), não há muro sobre o qual se empoleirar. Não há muro. Cedo ou tarde, vai ser preciso se posicionar. Espero que não resolva agir tarde demais.

Uri limita seu crescimento pelo medo, pela acomodação. Caminha para o abismo, achando que está seguro. A cada passo, seu mundo desmorona e ele amarra a venda sobre os olhos, ainda mais forte, para não ver o óbvio. O inevitável. O que Uri não enxerga é que os hebreus não são mais escravos. O escravo, na verdade, é ele.